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A mulher por trás do algoritmo

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A mulher das redes sociais acorda bonita, treina cedo, come certo, trabalha muito, ganha dinheiro, tem uma casa impecável, um relacionamento saudável, filhos bem cuidados, pele sem poros, cabelo disciplinado, corpo definido e uma serenidade que aparentemente sobrevive até à segunda-feira. Ela envelhece bem, mas não demais. Trabalha, mas não parece cansada. É independente, mas continua disponível. Cuida dos outros, mas não se abandona. Viaja, empreende, lê, medita, faz terapia, bebe água, toma suplementos e encontra tempo para tudo. Se a vida real não se parece com isso, talvez o problema, segundo a lógica das redes, seja você.

O problema é que essa mulher não existe. Ou, pelo menos, não existe da maneira como aparece na tela. Ela é uma montagem sofisticada de recortes da vida de milhares de pessoas transformados em um único padrão de comportamento. Um pouco da influenciadora que acorda às cinco, outro tanto da empresária que descobriu a própria independência, uma dose da mãe que parece nunca perder a paciência, o corpo daquela outra, a casa de uma terceira, o casamento de uma quarta e a juventude cuidadosamente editada de alguém que provavelmente também passa boa parte do tempo tentando parecer bem.

Ainda assim, milhões de mulheres se comparam com essa personagem como se estivessem diante de uma pessoa real.

As redes sociais não inventaram a cobrança sobre as mulheres. Elas apenas conseguiram torná-la permanente, personalizada e portátil. Antes, os padrões vinham das revistas, da televisão, da publicidade, da família, da escola, do grupo social. Agora chegam ao celular de manhã, no intervalo do trabalho, durante o almoço, antes de dormir e até nos momentos em que uma mulher deveria estar simplesmente vivendo. O algoritmo aprende o que prende sua atenção e devolve mais daquilo. Se ela demonstra preocupação com o corpo, recebe corpos. Se demonstra insegurança com a idade, recebe juventude. Se procura uma maneira de melhorar a relação, recebe relacionamentos perfeitos. Se reclama do cansaço, aparece alguém ensinando como acordar às cinco da manhã para ser ainda mais produtiva.

É uma máquina extraordinária de transformar insegurança em conteúdo.

E talvez esse seja um dos efeitos mais perversos da cultura digital: aquilo que antes era uma insatisfação ocasional pode se transformar em uma identidade. A mulher que não gostava do próprio cabelo passa a acreditar que precisa de determinado procedimento. A que não se sentia confortável com o corpo começa a acompanhar rotinas intermináveis de dieta e exercício. A que está envelhecendo passa a enxergar cada ruga como um problema. A que está cansada conclui que precisa administrar melhor o tempo. A que está solteira acredita que está fazendo alguma coisa errada. A que tem filhos se pergunta por que não consegue dar conta como aquela mãe do vídeo. A que trabalha muito sente culpa por não conseguir estar mais presente em casa. A que fica em casa sente culpa por não produzir mais.

A comparação nunca termina porque o padrão está sempre se deslocando.

Primeiro era preciso ser magra. Depois, definida. Depois, saudável. Depois, produtiva. Depois, empreendedora. Depois, emocionalmente equilibrada. Depois, uma mãe consciente. Depois, uma mulher independente. Depois, uma mulher independente que também sabe construir um relacionamento. Depois, alguém que envelhece com naturalidade, desde que essa naturalidade custe dinheiro suficiente para parecer natural.

A contradição é quase cômica, se não fosse tão desgastante. A mulher contemporânea recebeu a promessa de liberdade justamente quando passou a conviver com uma quantidade inédita de modelos sobre como deveria usar essa liberdade.

Não é apenas uma questão de aparência. Os padrões também alcançam o comportamento. Existe uma maneira correta de terminar um relacionamento, de estabelecer limites, de responder a uma mensagem, de educar os filhos, de lidar com a sogra, de administrar o dinheiro, de se vestir, de falar sobre sexo, de demonstrar autoestima e até de reagir a uma decepção. A experiência humana, que deveria comportar contradições, ambiguidades e dias ruins, passa a ser apresentada como um conjunto de regras rápidas.

Se ele não manda mensagem, faça isso. Se ele fez aquilo, termine. Se você está cansada, imponha limites. Se alguém ultrapassou seu limite, corte. Se não gosta do emprego, peça demissão. Se não está feliz, mude. Se não tem dinheiro, empreenda. Se não gosta do corpo, transforme-o.

Tudo parece simples quando a vida cabe em trinta segundos.

Mas a vida não cabe, uma mulher pode amar o marido e estar irritada com ele. Pode amar os filhos e precisar ficar sozinha. Pode querer trabalhar e sentir falta de casa. Pode desejar emagrecer sem odiar o próprio corpo. Pode gostar de maquiagem sem ser superficial. Pode escolher procedimentos estéticos sem ser escrava da aparência. Pode querer envelhecer naturalmente e também se cuidar. Pode terminar uma relação e continuar sentindo saudade. Pode perdoar alguém sem voltar para a mesma relação. Pode estar feliz e, naquele mesmo dia, estar exausta.

As redes, entretanto, preferem versões mais fáceis de consumir, a mulher complexa dá menos engajamento do que a mulher categórica. A dúvida rende menos que a certeza. A nuance não viraliza como a sentença. E assim, pouco a pouco, vamos trocando experiência por fórmula. Em vez de perguntar o que funciona para mim, começamos a perguntar o que está funcionando para todo mundo. Em vez de construir uma vida, passamos a tentar reproduzir uma estética de vida.

Talvez seja essa a pergunta que valha a pena fazer diante da próxima tendência, da próxima rotina perfeita, do próximo conselho sobre como ser uma mulher melhor: eu realmente quero isso ou aprendi a querer porque vejo isso o tempo inteiro?

Não é preciso abandonar as redes sociais para recuperar a própria identidade. Talvez seja necessário apenas lembrar que aquilo que aparece na tela foi selecionado para ser visto. A vida que não aparece continua sendo a maior parte da vida.

E talvez uma das formas mais silenciosas de liberdade feminina hoje seja justamente esta: parar de transformar cada mulher que aparece no celular em uma instrução de uso para si mesma. Porque a mulher não precisa descobrir qual é a versão mais adequada de si para caber no algoritmo.Precisa descobrir quem é quando ninguém está olhando.