Cinco mulheres, uma cidade: a força silenciosa que construiu Piracicaba
Há cidades que se orgulham de monumentos. Outras, de cifras. Piracicaba pode se orgulhar de mulheres que atravessaram seu tempo sem pedir licença à história. Cinco nomes, cinco trajetórias distintas, um traço em comum: presença. Não decorativa. Estruturante.
Adelaide Benvinda de Moraes Barros não foi apenas a esposa do primeiro presidente civil da República, Prudente de Moraes. Filha de Antônio José da Silva Gordo e de Ana Brandina de Barros, cresceu em um ambiente de influência política e prosperidade econômica. Casou-se em 28 de maio de 1866, em Santos, e acompanhou o marido em uma trajetória que atravessaria momentos decisivos do país. Mãe de oito filhos, enfrentou a fragilidade da saúde com a mesma discrição com que viveu. Levada a Berlim para tratamento, faleceu em 1911 e foi sepultada em Piracicaba. Seu nome não ocupa tribunas inflamadas, mas compõe o pano de fundo da formação republicana brasileira.
Se Adelaide representou a presença institucional, Giannina Dal Pino Morganti — a querida “Joaninha Morganti” — encarnou o cuidado social. Nascida em Alexandria, no Egito, imigrou ainda criança para o Brasil. Ao se casar com Pedro Morganti, proprietário da Refinadora Monte Alegre, tornou-se piracicabana de coração. A população da usina abrasileirou seu nome e a transformou em símbolo de acolhimento. Organizadora de campanhas solidárias, integrante da Legião Italiana de Assistência, sonhava com “Postos de Puericultura”. A escola municipal que leva sua memória teria nascido, segundo registros, sobre o subsolo de um desses projetos idealizados por ela, por volta de 1959. Joaninha foi chamada de “anjo bom”. Talvez porque, em tempos industriais, ousou humanizar o progresso.
Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz foi mais do que companheira de Luiz de Queiroz. Foi estrategista silenciosa. Filha do senador Cristiano Ottoni, viajada, culta, independente, participou ativamente das reuniões e viagens de negócios do marido. Ao lado dele, foi pioneira na instalação do sistema de telefonia em 1882 e da usina hidrelétrica em 1893, antecipando o uso da eletricidade na iluminação pública antes mesmo de capitais como São Paulo e Rio de Janeiro. Quando Luiz de Queiroz adquiriu e doou a Fazenda São João da Montanha ao Estado, gesto que resultaria na criação da atual Esalq/USP, Ermelinda estava ali, contribuindo com patrimônio e relações. A história registrou o nome dele. A inteligência dela sustentou a obra.
Zayra Bottene pertence a outra dimensão da coragem. Filha do empreendedor João Bottene, um dos responsáveis pela criação do aeroporto e do Aeroclube de Piracicaba, herdou a paixão pela aviação. Em 1941, aos 21 anos, concluiu o curso de piloto no próprio Aeroclube. Tornou-se a primeira aviadora de Piracicaba e a terceira do Brasil. Não havia redes sociais para celebrar pioneirismos. Havia céu aberto e uma cabine a ocupar. Zayra não apenas voou. Ela redefiniu o horizonte possível para mulheres de sua geração.
E então há Maria Benedita Pereira Penezzi, a Ditinha. Em 1º de janeiro de 1956, tomou posse como a primeira mulher e primeira pessoa negra eleita pelo voto direto a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de Piracicaba. Eleita em 1955 pelo Partido Social Progressista, rompeu um ciclo de 133 anos de um Legislativo exclusivamente masculino. Cumpriu quatro mandatos, totalizando 17 anos de atuação parlamentar. Negra, de origem humilde, enfrentou machismo e violência política com firmeza descrita como “valente, ainda que doce”. Suas proposituras evidenciam compromisso social: pediu espaço separado para menores na cadeia pública, defendeu albergue noturno para famílias em situação de vulnerabilidade, sugeriu uniformes para varredores municipais e destinou recursos para internos do Asilo Colônia Pirapitingui. Após os 50 anos, formou-se em Direito e dedicou-se à defesa de pessoas sem recursos. A tribuna do plenário hoje leva seu nome. Não como homenagem protocolar, mas como lembrança de que presença feminina na política é conquista, não concessão.
Cinco mulheres. Cinco épocas. Cinco formas de liderança.
Piracicaba não foi construída apenas por indústrias, fazendas ou prédios públicos. Foi moldada por mulheres que decidiram agir — nos bastidores do poder, no chão das fábricas, nas salas de aula, nas cabines de avião, nas cadeiras do Legislativo.
Em tempos de discursos fáceis sobre protagonismo feminino, talvez o mais elegante seja reconhecer o que já foi feito. Sem romantização. Sem retórica vazia. Apenas com a lucidez de quem entende que a história não se move por acaso.
Ela se move por pessoas.
E Piracicaba teve — e tem — mulheres que a fizeram avançar.