Opinião

O direito de resolver um problema sem conhecer ninguém

“Você conhece alguém lá dentro?” Essa pergunta deveria nos incomodar mais. Quando um cidadão precisa recorrer a um conhecido para conseguir uma informação, acompanhar um pedido ou receber atendimento, há algo que merece ser examinado. A proximidade com o poder não pode ser requisito para acessar aquilo que deve estar disponível a todos.

Como empresário, sei o valor de um prazo e de uma resposta clara. Quem trabalha, mantém um negócio e assume compromissos precisa organizar o próprio tempo. Uma manhã perdida entre balcões tem custo. Para quem depende da renda daquele dia, pode significar uma conta atrasada ou uma compra adiada. A administração pública precisa considerar essa realidade ao organizar seus serviços.

Defendo uma gestão que respeite o dinheiro do contribuinte e seja rigorosa com o próprio funcionamento. Isso inclui procedimentos compreensíveis, responsabilidades definidas e capacidade de explicar suas decisões. Um pedido pode ser negado, desde que exista uma razão legítima e que ela seja apresentada com clareza. O que não podemos aceitar como normal é o cidadão sair sem saber o que falta, quem deve procurar ou quando terá uma resposta.

Ser conservador, para mim, também significa preservar princípios que sustentam a vida em sociedade: honestidade, responsabilidade, respeito às instituições e cumprimento dos deveres. O favorecimento pessoal enfraquece esses princípios. Quando uma regra muda conforme o sobrenome ou a influência de quem pede, a confiança nas instituições se desfaz.

Minha formação católica me ensina a reconhecer a dignidade de cada pessoa. Essa convicção exige coerência também na vida pública. O idoso que chega sozinho, a mãe que precisa voltar ao trabalho e o pequeno empreendedor que busca uma orientação merecem atenção pelo que são: pessoas. Ninguém deveria precisar apresentar um padrinho para ser ouvido.

É preciso reconhecer, ainda, que muitos servidores trabalham com dedicação em estruturas difíceis. Cobrar eficiência exige oferecer condições de trabalho, orientação e processos bem organizados. Jogar toda a responsabilidade sobre quem atende no balcão é uma maneira cômod de deixar os problemas de gestão intactos. A cobrança deve alcançar quem tem autoridade para corrigir o funcionamento do serviço.

Também cabe ao cidadão cumprir sua parte: apresentar documentos, respeitar critérios, observar prazos e compreender que os recursos são limitados. A igualdade no atendimento exige que ninguém obtenha vantagem indevida, mesmo quando acredita ter uma boa justificativa. Uma fila só é justa quando seus critérios valem inclusive para os amigos.

Nesse ponto, a política precisa examinar seus próprios hábitos. Ajudar alguém a compreender um procedimento é uma contribuição legítima. Usar influência para alterar a ordem de atendimento é outra coisa. Quem exerce uma função pública deve trabalhar para que o caminho fique acessível ao próximo cidadão, inclusive àquele que nunca terá seu número de telefone.

Gostaria que a pergunta “você conhece alguém?” perdesse a utilidade diante de um serviço bem organizado. Que bastasse saber onde procurar, quais documentos levar e qual prazo esperar. Parece uma expectativa modesta. É justamente por isso que deveríamos levá-la tão a sério.

Uma cidade amadurece quando o cidadão consegue resolver sua vida com autonomia. E quando, ao receber aquilo a que tem direito, pode simplesmente agradecer pelo atendimento — sem ficar devendo um favor.