Opinião

O professor que todos homenageiam, mas poucos valorizam

Neste Dia do Professor, proponho uma reflexão que vai além das homenagens e dos discursos sobre a importância da educação. Afinal, de que vale reconhecer a grandeza de uma profissão se continuamos tratando sua valorização como algo secundário? No artigo desta semana, na coluna Debate Aberto, convido você a olhar para uma contradição que o Brasil parece ter aprendido a aceitar: admiramos profundamente quem ensina, mas ainda fazemos muito pouco para tornar o magistério uma carreira verdadeiramente valorizada. Uma leitura sobre o que celebramos, o que negligenciamos e, sobretudo, o que nossas escolhas revelam sobre o futuro da educação.


O Brasil desenvolveu uma relação conveniente com a ideia de vocação docente. Durante décadas, ensinar foi apresentado como uma missão que exigiria amor, dedicação e capacidade de renúncia. Nada disso é desprezível. O problema começa quando essas qualidades passam a justificar condições que dificilmente seriam aceitas em outras profissões. Espera-se que o professor compreenda as limitações orçamentárias, aceite a sobrecarga administrativa, administre conflitos e não permita que suas reivindicações comprometam a imagem de quem escolheu ensinar. Como se desejar remuneração adequada e perspectivas de carreira fosse incompatível com a nobreza do magistério.

Essa romantização produziu uma distorção que raramente aparece nas homenagens. O professor tornou-se uma figura socialmente admirada, mas profissionalmente pouco prestigiada. Exige-se formação, atualização permanente, equilíbrio emocional e capacidade de adaptação a uma realidade escolar cada vez mais complexa. Em contrapartida, a valorização concreta avança em ritmo muito inferior ao crescimento das exigências. E não se trata apenas de salário. Uma carreira precisa oferecer horizontes. Sem progressão consistente, condições adequadas e reconhecimento da experiência, o magistério corre o risco de se sustentar mais pela resistência de quem permanece do que pelo interesse de quem deseja ingressar.

A responsabilidade política por esse cenário merece ser examinada sem complacência. A educação é uma unanimidade conveniente nas campanhas eleitorais. Todos prometem valorizá-la, porque defender professores rende aprovação e dificilmente exige explicações imediatas. O problema aparece quando o compromisso precisa disputar espaço no orçamento. Nesse momento, aquilo que era prioridade absoluta passa a depender de estudos, disponibilidade financeira e planejamento futuro. É evidente que políticas públicas exigem responsabilidade fiscal. O que merece questionamento é a facilidade com que a valorização docente se transforma em promessa permanentemente negociável, enquanto a exigência por resultados educacionais permanece inegociável.

Talvez a consequência mais grave dessa contradição esteja nas escolhas das próximas gerações. Quando jovens talentosos deixam de considerar o magistério uma possibilidade profissional atraente, não estamos diante de uma simples mudança de preferência. Estamos diante de um sinal de que a sociedade pode estar perdendo a capacidade de convencer seus cidadãos de que vale a pena dedicar a vida ao ensino. Nenhuma carreira se sustenta indefinidamente com homenagens, tampouco haverá política educacional consistente se depender de profissionais dispostos a aceitar condições que afastariam candidatos de outras áreas.

Há ainda uma perversidade discreta na maneira como celebramos professores que conseguem ensinar apesar de tudo. Admiramos aqueles que compram materiais com recursos próprios, ultrapassam jornadas, improvisam soluções e transformam dificuldades em resultados. São demonstrações legítimas de compromisso, mas revelam uma inversão preocupante: passamos a tratar a capacidade de superar a precariedade como virtude profissional, quando deveríamos questionar por que ela continua sendo necessária. O esforço individual merece reconhecimento. Sua utilização como substituto de políticas públicas, não.

O Dia do Professor não deveria perder seu significado. Pelo contrário. A data poderia representar uma oportunidade de reflexão mais séria sobre o que entendemos por valorização. Respeitar professores não significa colocá-los em um pedestal, tampouco exigir que sejam heróis de uma causa permanente. Significa reconhecer que exercem uma profissão, com responsabilidades, direitos e expectativas legítimas de desenvolvimento. A educação não precisa de mais discursos sobre sua importância. Precisa de decisões compatíveis com ela.

No dia 15 de outubro, não faltarão agradecimentos e declarações de admiração. Mas uma sociedade não demonstra suas prioridades apenas pelo que celebra, e sim pelo que está disposta a sustentar. Porque agradecer a quem ensina é simples. Difícil, ao que parece, é construir um país em que ensinar continue valendo a pena.