Debate Aberto

Onde o envelhecer não é limite, é história

Luciana Carboni, Dona Ana Aragon e Dra Luciana Maimome Divulgação
Luciana Carboni, Dona Ana Aragon e Dra Luciana Maimome

Falar sobre envelhecimento exige mais do que conhecimento técnico. Exige presença, escuta e humanidade. É a partir desse entendimento que a fisioterapeuta e gerontologista Dra. Luciana Maimone constrói sua prática profissional, unindo ciência e empatia para cuidar de quem atravessa a fase mais delicada — e, ao mesmo tempo, mais significativa — da vida.

Na geriatria, explica, não existe protocolo que se sobreponha ao tempo de cada pessoa. Cada idoso carrega uma história, um ritmo, limites próprios que precisam ser respeitados. O atendimento, portanto, começa muito antes das técnicas. Começa no olhar acolhedor, na paciência, na tolerância e na construção da confiança. “Não se trata apenas de estar de jaleco branco, mas de ser um ser humano compreendido”, resume.

Essa abordagem pôde ser acompanhada de perto durante uma entrevista presencial realizada na casa de Dona Ana Aragon, de 94 anos, paciente da Dra. Luciana. Dona Ana iniciou o tratamento em razão de dificuldades de locomoção e, hoje, demonstra satisfação e alegria com a evolução conquistada. O cuidado, realizado no ambiente onde ela se sente segura, respeitada e confortável, reforça a importância de um atendimento que vai além da técnica e se adapta à realidade do paciente.

Para Luciana, um dos grandes equívocos da sociedade é tratar o envelhecimento como sinônimo de perda ou esquecimento. Envelhecer é parte do ciclo natural da vida, uma fase de amadurecimento humano que precisa ser respeitada e amparada. Autonomia, nesse contexto, não é privilégio — é direito. E começa dentro de casa, nas pequenas atitudes familiares que preservam a independência do idoso em vez de anulá-la.

Ela defende que a estimulação cognitiva e física deve ser incorporada de forma contínua, inclusive por meio de políticas públicas e ações institucionais. Um pensamento ativo gera movimento, e o corpo responde aos estímulos quando a mente é convidada a participar. Envelhecimento ativo é resultado de consciência coletiva.

No cotidiano das famílias, os desafios são muitos. O simples fato de perceber que pai ou mãe envelheceu já gera insegurança. Em casos de demência, o medo se intensifica e, muitas vezes, a autonomia restante é retirada por excesso de cuidado. Luciana orienta que o caminho mais seguro é buscar profissionais especializados, capazes de explicar os processos das patologias e orientar comportamentos de forma clara, humana e responsável.

Foi exatamente essa visão que a levou a optar por uma fisioterapia humanizada, que cuida não apenas do idoso, mas também da família. Compartilhar dúvidas, medos e aprendizados faz parte do tratamento. Quando todos caminham juntos, os resultados se tornam mais consistentes e dignos.

Ao longo da carreira, alguns encontros deixam marcas profundas. Um deles foi o acompanhamento de um idoso em estágio avançado de enfisema pulmonar. O objetivo não era curar, mas oferecer qualidade de vida. Entre técnicas respiratórias, escuta atenta e acolhimento emocional, foi possível reduzir a ansiedade, aliviar a falta de ar e preservar a autoestima — mesmo diante da consciência da finitude.

No momento mais crítico, já hospitalizado, o paciente passou a chamar pelo nome da fisioterapeuta, acreditando que sua presença resolveria o sofrimento, como tantas vezes havia acontecido antes. Luciana foi até ele sabendo que não havia mais recursos técnicos a oferecer — apenas presença. Segurou sua mão, acalmou-o, acolheu a família e permaneceu até o fim. “Nossa vida é um sopro”, reflete. “E tudo o que podemos fazer é acolher com o coração, mesmo quando ele também dói.”

Se pudesse deixar uma única mensagem, seria direta e necessária: envelhecer não é doença. É maturidade. Corpo e mente continuam capazes de vencer barreiras em qualquer idade. O cuidado certo não prolonga apenas os anos — preserva a dignidade de viver cada um deles.