Trabalhar para viver também exige tempo para a vida
O trabalhador que pede mais tempo para a família não está pedindo licença para deixar de produzir. Está lembrando que o trabalho deve sustentar uma vida que também acontece fora dele. É por isso que o debate sobre o fim da escala 6x1 merece ser tratado com respeito e responsabilidade. Entre a promessa fácil e a resistência automática, existe uma discussão que o Brasil precisa amadurecer.
Como empresário, reconheço o valor de quem abre as portas todos os dias, assume riscos e mantém empregos. Mas reconheço também o esforço de quem passa seis dias trabalhando e concentra em uma única folga o descanso, as tarefas domésticas e a convivência familiar. Nesse intervalo apertado, cabe tudo aquilo que não pôde acontecer durante a semana. Muitas vezes, o descanso fica por último.
Defender a família exige olhar para essa realidade. A presença dos pais, a atenção aos filhos e o cuidado com os mais velhos precisam de tempo. Nenhum discurso sobre valores familiares substitui uma cadeira ocupada à mesa. Quem acredita na importância da família deve considerar seriamente as condições que permitem ao trabalhador participar dela.
A proposta em discussão no Senado prevê reduzir a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas e assegurar dois dias de repouso remunerado, sem redução salarial. Trata-se de uma mudança relevante, que exige avaliar sua implementação e as particularidades das atividades econômicas.
Uma pequena padaria, um supermercado, uma indústria e um hospital têm necessidades diferentes. Há serviços que precisam funcionar todos os dias, independentemente da escala de cada funcionário. Organizar equipes, ajustar horários e eventualmente contratar pessoas envolve custos. Ignorar essas questões enfraquece a proposta; examiná-las com seriedade ajuda a construir uma mudança duradoura.
Em Piracicaba, onde comércio, serviços e indústria convivem com tantos negócios familiares, essa discussão tem endereço e rosto. De um lado, há o trabalhador que deseja acompanhar o crescimento do filho. De outro, o pequeno empresário que precisa fechar as contas do mês. Muitas vezes, os dois enfrentam o mesmo problema: trabalham muito e encontram pouco espaço para respirar. Transformá-los em adversários é conveniente para o palanque e pouco útil para a cidade.
Por isso, considero legítimo avançar na redução da escala, com transição responsável, diálogo entre trabalhadores e empregadores e atenção especial aos pequenos negócios. O poder público também precisa assumir sua parte: simplificar obrigações, melhorar a formação profissional e criar condições para que as empresas produzam melhor. Não basta determinar uma mudança e deixar toda a adaptação por conta de quem emprega.
Também seria imprudente anunciar que trabalhar menos sempre produzirá mais ou que qualquer redução inevitavelmente destruirá empregos. Resultados dependem da atividade, da organização e das condições de cada empresa. O debate precisa de evidências e disposição para corrigir rumos. Certezas absolutas costumam render boas frases; raramente resolvem uma folha de pagamento.
Minha visão é que o trabalho deve oferecer sustento, dignidade e possibilidade de construir um futuro. O descanso faz parte desse compromisso. Uma sociedade que valoriza o esforço precisa cuidar para que ele não consuma tudo aquilo que lhe dá sentido.
O fim da escala 6x1 merece uma solução que respeite o trabalhador e preserve as condições de manter empregos. A responsabilidade está em fazer essas duas necessidades caminharem juntas. Afinal, o salário sustenta a casa. A presença ajuda a fazer dela um lar.