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“Aqui Não Entra Luz” transforma arquitetura doméstica em denúncia sobre herança social brasileira

Documentário de estreia da cineasta Karol Maia discute segregação dos quartos de empregada e reúne relatos de mulheres que viveram o trabalho doméstico em diferentes regiões do país

Esta segregação de espaços é o tema de seu longa-metragem de estreia: Aqui Não Entra Luz. O filme Embaúba Filmes/Divulgação
Esta segregação de espaços é o tema de seu longa-metragem de estreia: Aqui Não Entra Luz. O filme

O documentário Aqui Não Entra Luz, longa de estreia da cineasta paulistana Karol Maia, entrou em cartaz nos cinemas na última terça-feira, 07 de maio, propondo uma reflexão sobre a arquitetura das casas brasileiras e a relação histórica entre trabalho doméstico, segregação social e herança escravocrata.

O filme acompanha a trajetória de cinco mulheres que trabalham ou trabalharam como empregadas domésticas em diferentes estados do país. A partir de relatos pessoais e memórias familiares, a produção discute como espaços tradicionalmente destinados às funcionárias domésticas foram incorporados ao desenho das residências brasileiras ao longo das décadas.

Segundo a diretora, os chamados “quartinhos de empregada” revelam uma lógica estrutural de separação dentro das casas. Em entrevista à Agência Brasil, Karol Maia descreveu esses ambientes como espaços geralmente pequenos, localizados próximos às áreas de serviço e afastados das áreas principais das residências.

Entre as personagens do documentário está Miriam Mendes, mãe da diretora, que também assina o roteiro do longa. As experiências da infância de Karol acompanhando a mãe durante o trabalho doméstico serviram como ponto de partida para o projeto.

A cineasta também chama atenção para a baixa valorização econômica da profissão no Brasil. Para ela, o fato de famílias de baixa renda também contratarem trabalhadoras domésticas evidencia a precarização histórica da atividade.

Outra participante do documentário é Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, conhecida como Rosarinha. Natural de Minas Gerais, ela relata ter sido levada ainda jovem para trabalhar em outra cidade sob promessa de estudo e melhores condições de vida, acordo que, segundo ela, nunca foi cumprido.

Hoje vivendo em Belo Horizonte, Rosarinha segue atuando como empregada doméstica, mas afirma enxergar sua trajetória com orgulho. Casada e mãe, ela diz que sonha em se aposentar e dedicar o tempo à própria casa e à família.

As pesquisas para o filme começaram em 2017 e passaram por estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Maranhão, regiões que receberam grande parte da mão de obra escravizada no país. Durante as gravações, a equipe visitou antigas Casas Grandes e Senzalas abertas à visitação pública.

Segundo Karol Maia, a diferença de preservação entre esses espaços chamou atenção da produção. Enquanto estruturas principais permaneciam conservadas, áreas destinadas aos trabalhadores apresentavam sinais de abandono e materiais mais precários.

O debate levantado pelo documentário também alcança o campo legislativo. Em 22 de abril, a Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei Complementar 18/25, que proíbe expressões como “quarto de empregada” e “dependência de empregada” em projetos arquitetônicos. A proposta é de autoria da deputada Denise Pessôa.