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Para CNC, bets agravam endividamento das famílias brasileiras

Entidade afirma que apostas online drenam renda, afetam consumo e podem ter levado 270 mil famílias à inadimplência severa.

O crescimento do gasto dos brasileiros com as plataformas eletrônicas foi superior a R$ 30 bilhões por mês REUTERS/Alexandre Meneghini
O crescimento do gasto dos brasileiros com as plataformas eletrônicas foi superior a R$ 30 bilhões por mês

De janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência do consumidor causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista, segundo estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O montante equivale ao volume de vendas nos períodos de Natal de 2024 e 2025.

A entidade afirma que o crescimento do gasto dos brasileiros com as plataformas eletrônicas nesse período foi superior a R$ 30 bilhões por mês. Para a CNC, o entretenimento comprometeu a disponibilidade de renda para manter o pagamento em dia das dívidas e pode ter levado 270 mil famílias à situação de inadimplência severa, marcada por atrasos de 90 dias ou mais.

A confederação avalia que a inadimplência decorrente de gastos com as bets tem impacto sobre o consumo e as vendas do comércio varejista. De acordo com o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, em situação de aperto financeiro das famílias, gastos não essenciais e até essenciais acabam sendo sacrificados. "Podem deixar de trocar de celular ou podem deixar de comprar uma peça de vestuário por causa de agravamento da sua dívida", exemplificou.

Bentes apresentou nesta terça-feira(28), em Brasília, análise econométrica com dados apurados pela própria CNC e colhidos do Banco Central. Conforme a avaliação da confederação, os impactos das bets sobre o endividamento variam conforme o grupo demográfico. Homens, famílias de baixa renda [até 5 salários mínimos], pessoas mais velhas (35+ anos) e aquelas com maior escolaridade (2 grau+) apresentam maior vulnerabilidade aos efeitos das apostas.

Segundo a CNC, os gastos com apostas em plataformas eletrônicas podem até afligir famílias com renda superior, que desviam recursos para as bets e deixam de honrar compromissos, o que acarreta atrasos e inadimplência. A entidade também afirma que as bets afetam principalmente as famílias mais vulneráveis, aumentando seu endividamento global, enquanto para os mais ricos funcionam como substituto de outras formas de endividamento.

O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, defende a implementação de políticas públicas regulatórias para as plataformas e de proteção a consumidores. Em nota à imprensa, ele afirmou que as apostas online estão comprometendo a renda das famílias brasileiras. "O impacto já deixou de ser pontual e se tornou macroeconômico. Precisamos discutir os limites desse mercado, especialmente no que diz respeito à publicidade e à proteção das famílias brasileiras."

De acordo com a CNC, oito em cada dez famílias (80,4%) estão endividadas no Brasil. O indicador é próximo dos 78% verificado no final de 2022. Entre 2019 e aquele ano, a proporção de famílias endividadas cresceu quase 20 pontos percentuais.

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa as plataformas de aposta eletrônica que operam legalmente no Brasil, enviou ontem (27) notificação formal à CNC cobrando transparência metodológica e acesso integral às bases de dados usadas para avaliar o impacto das bets no endividamento das famílias. Para o IBJR, outras edições do estudo partiram de premissa completamente desalinhada com os dados oficiais.

Conforme o instituto, as conclusões divulgadas pela CNC são alarmistas e contrariam frontalmente as métricas oficiais. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também disse que os números apresentados pela CNC "não condizem com os dados oficiais do governo e do setor." Segundo a associação, a CNC desconsidera "a natureza multifatorial do endividamento dos brasileiros."