Tecnologia apoiada pela Fapesp ajuda a Nasa a planejar próximas missões para a Lua
Dispositivo desenvolvido por startup paulista foi levado na missão Artemis II para monitorar sono, atividade física e interações da tripulação.
Kim Shiflett/Nasa/Divulgação
Um dispositivo desenvolvido pela startup paulista Condor Instruments, com apoio inicial do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, foi utilizado pela Nasa para monitorar os padrões de sono, a atividade física e as interações da tripulação da missão Artemis I.
Denominado actígrafo, o equipamento tem formato de relógio de pulso e integra acelerômetros e sensores de luz e temperatura para mapear, com alta precisão, os padrões de sono e vigília do usuário ao longo de dias ou semanas. O funcionamento baseia-se em um sensor de atividade que monitora a frequência e a intensidade dos movimentos do braço.
A partir da análise desses dados, é possível inferir os períodos de repouso e os de prontidão, registrando com exatidão o comportamento circadiano do indivíduo. O dispositivo conta ainda com dez sensores embarcados que detectam a exposição à luz em diferentes faixas espectrais.
Segundo Mario Pedrazzoli Neto, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP (EACH-USP), o ciclo claro-escuro é definido pela rotação da Terra e é a partir dele que o cérebro antecipa o momento do sono. No espaço, essa referência se perde, pois os astronautas podem permanecer em claridade ou escuridão constantes, dependendo da posição em relação ao Sol.
Na Estação Espacial Internacional (ISS), os astronautas testemunham 16 alvoreceres e entardeceres por dia, fenômenos que podem desregular severamente o ciclo sono-vigília. Para mitigar esse estresse, foram instalados na estação sistemas de diodos emissores de luz (LEDs) que simulam o ciclo terrestre.
Para a campanha Artemis, a agência espacial norte-americana iniciou, em 2023, um estudo para monitorar o bem-estar, o nível de atividade, os padrões de sono e as interações dos astronautas. A motivação do projeto, batizado Archer (Artemis Research for Crew Health and Readiness), reside no ambiente crítico da cápsula Orion, um espaço confinado e reduzido.
De acordo com Okamoto, o actígrafo brasileiro destaca-se frente aos competidores internacionais por integrar o monitoramento da atividade motora, a exposição à luz e a temperatura da pele. Outro diferencial é a medição da luz melanópica, espectro da luz azul-ciano (cerca de 490 nanômetros) que impacta o sistema não visual humano.