A Casa Sempre Vence
A partir desta sexta-feira, 17 de julho, o Brasil assistirá a uma cena rara na publicidade: o produto será obrigado a dizer parte da verdade sobre si mesmo. Os anúncios de bets deverão reservar ao menos 10% de sua área para advertências como “Apostar faz você perder dinheiro”, “Apostar pode causar dependência” e “Aposta não é investimento”. Demorou, mas a obviedade finalmente conquistou espaço oficial.
O cassino, antes instalado em prédios luxuosos e destinos turísticos, mudou-se para dentro do telefone celular. Está no intervalo do futebol, na camisa dos clubes, na fala dos influenciadores e nas notificações que chegam durante o jantar. Não exige viagem, roupa adequada ou sequer dinheiro disponível. Basta um toque, uma transferência instantânea e a esperança de que o próximo lance fará aquilo que o trabalho, o salário e a economia doméstica não conseguiram fazer.
Não se trata de negar a liberdade individual nem de transformar todo apostador ocasional em pessoa incapaz de decidir. O problema começa quando uma indústria altamente sofisticada utiliza dados, cores, recompensas, celebridades e estímulos permanentes para explorar justamente os momentos de maior fragilidade. A pessoa acredita que está escolhendo livremente, enquanto algoritmos estudam seus hábitos, calculam seus impulsos e descobrem o instante exato em que ela estará mais propensa a tentar “recuperar” o que perdeu.
As novas regras também ampliam a responsabilidade de influenciadores, comentaristas e demais participantes da publicidade. Proíbem anúncios dirigidos a crianças e adolescentes e vedam mensagens capazes de apresentar a aposta como investimento ou caminho para o enriquecimento. São medidas corretas. Afinal, quando um ídolo vende a fantasia do dinheiro fácil para milhões de seguidores, não está apenas divulgando uma marca. Está emprestando sua credibilidade a um produto cujo lucro depende, necessariamente, da derrota de seus próprios admiradores.
Existe, porém, uma peculiaridade quase elegante nessa história. O mesmo Estado que autorizou as empresas, regulamentou o negócio e passou a arrecadar com as apostas agora exige que elas confessem seus perigos. Transformou o risco em fonte de receita e reservou 10% do anúncio para demonstrar preocupação com quem perdeu. A consciência pública, ao que parece, também passou a ser comercializada por centímetro quadrado: pequena o suficiente para não atrapalhar o espetáculo, mas visível o bastante para aliviar a responsabilidade.
A advertência é um começo, não uma solução. Será necessário fiscalizar a publicidade digital, bloquear rapidamente plataformas ilegais, responsabilizar quem promove operadores clandestinos, fortalecer os mecanismos de autoexclusão e ampliar o atendimento às pessoas que desenvolveram dependência. Escolas precisam trabalhar educação financeira, famílias devem receber orientação e as próprias empresas devem financiar ações de prevenção e tratamento. Quem obtém lucro com a compulsão não pode transferir toda a conta para o SUS, para os endividados e para os lares destruídos.
Em toda aposta, a casa sempre vence. A verdadeira decisão política é definir de qual casa se está falando. Se for a plataforma, continuarão vencendo os algoritmos, os acionistas e os vendedores de ilusões. Se for a casa brasileira, deverão vencer o orçamento familiar, a comida na mesa, a tranquilidade dos pais e o futuro dos filhos. Liderança pública começa quando se escolhe proteger essa segunda casa, porque nenhuma arrecadação justifica enriquecer o cassino empobrecendo as famílias.