A Consciência não está na folha de pagamento
Em período eleitoral, algumas pessoas parecem perder a noção exata dos limites do poder que possuem. Há quem confunda liderança com tutela, autoridade com domínio e salário com procuração sobre a consciência alheia. O assédio eleitoral nasce justamente dessa deformação: da ideia de que uma relação profissional, porque naturalmente envolve hierarquia e dependência econômica, autorizaria alguém a avançar sobre um território que não lhe pertence. Não autoriza. O empresário pode ser dono da empresa, nunca da consciência de quem trabalha nela. O chefe pode cobrar produtividade, compromisso, pontualidade e resultado. Pode demitir dentro dos limites da lei, promover, organizar equipes e estabelecer objetivos. O que não pode fazer é transformar emprego em instrumento de convencimento político. Nas eleições de 2026, a regra tornou-se ainda mais explícita: o TSE passou a vedar propaganda e assédio eleitoral em ambientes de trabalho públicos e privados. O Ministério Público do Trabalho, por sua vez, caracteriza como assédio eleitoral práticas de coação, intimidação, ameaça, humilhação ou constrangimento destinadas a influenciar voto, apoio ou manifestação política do trabalhador. (Justiça Eleitoral)
É preciso, entretanto, cuidado para que o combate a um abuso não produza outro. Vivemos uma época em que rapidamente se tenta transformar qualquer conversa política em violência e qualquer divergência em ofensa. Isso também empobrece a sociedade. Empresário tem posição política. Sindicalista tem posição política. Professor, bancário, servidor, comerciante e trabalhador da indústria também têm. Ninguém deveria ser obrigado a representar uma espécie de neutralidade artificial para provar respeito à democracia. Uma sociedade livre é feita justamente de pessoas que pensam diferente e têm o direito de dizer o que pensam. O limite não está na opinião. Está no poder utilizado para impor essa opinião. Uma conversa entre pessoas livres é política; uma conversa em que uma delas sabe que contrariar a outra pode custar emprego, promoção ou renda exige responsabilidade muito maior. E essa diferença, embora pareça elementar, costuma desaparecer convenientemente quando a paixão eleitoral entra pela porta.
Também me incomoda a seletividade com que determinados princípios são defendidos. Coação não passa a ser aceitável porque vem do lado político com o qual concordamos. Pressão ideológica exercida por empresário é errada. Pressão exercida por dirigente sindical também merece escrutínio. O mesmo vale para quem ocupa cargo público e utiliza a autoridade institucional para constranger subordinados. O Código Eleitoral, aliás, trata expressamente tanto da utilização da autoridade de servidor público para coagir alguém a votar ou deixar de votar em determinado candidato ou partido quanto do uso de violência ou grave ameaça contra a liberdade do voto. (Presidência da República) Liberdade política não pode ser um princípio de ocasião, invocado apenas quando protege os nossos. Ou vale para todos, ou deixa de ser liberdade e passa a ser conveniência.
Como empresário, considero particularmente equivocada a ideia de que defender o setor produtivo exige relativizar esse limite. É justamente o contrário. Quem defende liberdade econômica deveria compreender, antes de muitos, que liberdade não pode ser fracionada conforme a conveniência. Não faz sentido exigir um Estado que respeite escolhas individuais, propriedade, iniciativa privada e autonomia para empreender enquanto, dentro da própria empresa, se pretende administrar a consciência política do funcionário. Há uma incoerência evidente nisso. A empresa contrata trabalho, conhecimento e responsabilidade profissional. Não compra voto. E um salário, por maior que seja, jamais deveria vir acompanhado da expectativa de submissão política.
Há ainda uma dimensão moral que não deveria ser desprezada. Para quem, como eu, compreende a vida também a partir de valores cristãos, consciência não é mercadoria disponível para negociação. Fé imposta não é fé; convicção imposta também não é convicção. O respeito ao outro perde completamente o sentido quando existe apenas enquanto o outro concorda conosco. É muito fácil defender liberdade para quem pensa igual. O teste verdadeiro aparece diante de quem discorda — às vezes profundamente — e ainda assim deve ter preservado o direito de escolher sem medo de punição, humilhação ou prejuízo profissional.
Isso não significa transformar trabalhador em alguém incapaz de ouvir argumentos ou tomar suas próprias decisões. Pelo contrário. Há certo paternalismo disfarçado de proteção quando se parte da premissa de que qualquer manifestação política é suficiente para manipular um adulto. Trabalhadores não são propriedade eleitoral de sindicatos, empresas, partidos ou governos. São cidadãos. Podem ouvir, discordar, mudar de opinião ou simplesmente ignorar aquilo que lhes dizem. Combater o assédio eleitoral deve significar proteger essa autonomia, não esterilizar o debate político. A legislação eleitoral de 2026 proíbe propaganda e assédio no ambiente de trabalho; e o MPT inclui entre as condutas problemáticas ameaças relacionadas ao emprego, promessa de vantagens vinculadas ao voto, constrangimento para participação em atos e discriminação decorrente de divergência política. (Justiça Eleitoral) É uma fronteira que precisa ser respeitada sem malabarismos.
O problema, portanto, não é empresário fazer política. Empresários são cidadãos e têm o mesmo direito de participar do debate público que qualquer outra pessoa. O problema começa quando alguém acredita que o tamanho da empresa aumenta também o tamanho do seu voto. Não aumenta. No dia da eleição, a democracia produz uma igualdade que o mercado de trabalho evidentemente não produz: o voto daquele que assina a folha de pagamento vale exatamente o mesmo que o voto daquele cujo nome está nela.
E é bom que seja assim. Uma sociedade realmente livre não precisa de patrões escolhendo por empregados, sindicatos escolhendo por trabalhadores ou governos escolhendo por servidores. Precisa de cidadãos capazes de assumir a responsabilidade por suas próprias decisões. O empresário administra a empresa. O trabalhador responde pelo seu trabalho. E cada um responde pela própria consciência. Há limites que uma relação de emprego não deveria sequer tentar atravessar. A urna é um deles.