A inconveniente inteligência dos sonsos

A pessoa ruim, quando não esconde o que é, presta ao menos um serviço à sociedade: facilita a identificação do perigo. Já a pessoa sonsa exige observação mais refinada. Sua especialidade é praticar pequenas perversidades com expressão de quem jamais faria mal a uma mosca, embora não hesitasse em arruinar a reputação do inseto. Cultiva uma inocência tão ostensiva que chega a despertar suspeitas. Afinal, ninguém precisa anunciar tantas vezes a própria bondade quando ela é minimamente perceptível.
O sonso não é ingênuo. É seletivamente desinformado. Sabe a quem agradar, de quem se aproximar e quais informações podem render vantagens. Sua inteligência funciona admiravelmente até precisar assumir alguma responsabilidade. Então, sobrevém uma súbita deficiência de compreensão: não entendeu, não percebeu, não teve intenção. Curiosamente, essa incapacidade jamais compromete sua habilidade de identificar oportunidades. É uma inocência com excelente senso de negócios.
O contraste entre discurso e prática é sua principal marca. Prega respeito enquanto desqualifica ausentes, exige lealdade enquanto negocia confidências e transforma valores morais em acessórios de apresentação pessoal. Há quem invoque Deus com tamanha frequência que parece esperar uma declaração divina de bons antecedentes. A fé não está em julgamento. O problema é utilizá-la como salvo-conduto para atitudes que dispensariam sermões e exigiriam apenas um pouco de vergonha.
Outra especialidade é a inversão de responsabilidades. O sonso provoca, insinua, distorce e, quando encontra resistência, apresenta-se como vítima de uma injustiça monumental. Não raro, convence terceiros de que a reação foi mais grave que a provocação. É o equivalente moral de quebrar a vidraça e exigir indenização pelo susto. O espetáculo inclui indignação ensaiada, memória seletiva e disposição para contar apenas a metade conveniente dos fatos.
Nas relações pessoais e profissionais, essa habilidade encontra terreno fértil. A cordialidade muda conforme a importância do interlocutor, a amizade dura enquanto oferece utilidade e os princípios sofrem ajustes discretos conforme a ocasião. O sonso não precisa conquistar todos; basta preservar uma reputação capaz de transformar atitudes questionáveis em mal-entendidos. E quem percebe o padrão ainda corre o risco de ser acusado de maldade por desconfiar de criatura tão angelical.
O problema não são as contradições humanas, inevitáveis até entre pessoas decentes, mas a dissimulação transformada em método. Existe uma diferença entre cometer um erro e organizar cuidadosamente as circunstâncias para jamais responder por ele. A primeira situação admite reconhecimento e reparação. A segunda exige plateia, álibi e alguém disponível para carregar a culpa.
Com o tempo, as versões tropeçam umas nas outras. A consideração desaparece quando termina a vantagem, os elogios públicos não resistem às conversas privadas e a suposta ingenuidade revela sua capacidade de cálculo. Não é necessário promover escândalos. Às vezes, basta retirar a confiança de quem a utiliza como matéria-prima para suas pequenas operações.
A gente sonsa pode convencer muita gente de que não sabe o que faz. Seu verdadeiro talento, porém, é conseguir dormir tranquila depois de fazer exatamente o que pretendia