As oito patas e os direitos que nunca deveriam ser discutidos
Confesso uma coisa: eu, Paçoca, desconfio que os humanos têm uma vocação especial para complicar o que deveria ser simples. Já a Matilda diz que vocês apenas gostam de conversar. Seja qual for a explicação, volta e meia nos deparamos com uma discussão que nos deixa olhando uma para a outra sem entender: por que ainda é preciso debater os direitos dos animais?
Nós nunca pedimos luxo. Aliás, nossa lista de reivindicações é tão modesta que cabe numa única tigela: comida, água limpa, um lugar seguro para descansar, cuidados quando a saúde pede ajuda e uma família que permaneça ao nosso lado quando o pelo embranquece e o focinho já não tem a mesma disposição de antes.
Eu, Paçoca, tenho um defeito — ou uma qualidade, depende do ponto de vista. Não consigo fingir que certas coisas são normais. Nunca vou entender como alguém consegue chamar um cachorro ou um gato de “filho” enquanto somos pequenos e adoráveis, mas muda de ideia quando crescemos, adoecemos ou simplesmente começamos a dar trabalho. Amor que vence com a primeira dificuldade não era amor; era conveniência.
A Matilda, como sempre, prefere acreditar que muitos apenas esqueceram de olhar para nós como seres vivos. Nós sentimos medo, saudade, dor e alegria. Esperamos vocês chegarem, reconhecemos passos, vozes e cheiros. Não sabemos ler relógios, mas sabemos exatamente quando alguém demora mais do que o habitual para voltar para casa.
Outro dia ouvimos alguém dizer que os animais têm direitos demais. Ficamos curiosas. Direitos demais seriam quais? O de não apanhar? O de não passar fome? O de receber atendimento quando adoecemos? O de não sermos abandonadas porque a mudança de casa ficou apertada ou porque as férias chegaram? Se isso parece exagero, talvez a conta esteja sendo feita do jeito errado.
Também aprendemos que maus-tratos nem sempre fazem barulho. Às vezes, eles chegam em silêncio. Estão na corrente que nunca é solta, na tigela vazia, na falta de cuidado, na indiferença. E, principalmente, no abandono. Quem abandona vira a página; quem é abandonado continua esperando.
No fundo, nós não queremos privilégios. Queremos apenas aquilo que qualquer ser vivo merece: respeito. Direitos dos animais nunca significaram colocar cães e gatos acima das pessoas. Significam impedir que a crueldade seja tratada como algo comum.
Nós continuaremos fazendo a nossa parte. Recebendo vocês com a mesma alegria de sempre, perdoando broncas em poucos minutos e acreditando que amanhã será um bom dia. Afinal, nós entendemos de lealdade.
Agora, se vocês aprenderem um pouquinho sobre responsabilidade, temos a impressão de que todos sairemos ganhando.
Paçoca & Matilda
Porque amor, quando é de verdade, não precisa de pedigree. Precisa de compromisso.