Democracia em liquidação
Há uma pergunta que quase nunca fazemos depois de uma eleição: quanto custou, de verdade, conquistar cada voto? Não em dinheiro. Em renúncias. Em promessas que jamais seriam cumpridas. Em alianças improváveis. Em discursos cuidadosamente moldados para agradar públicos diferentes. Em vídeos produzidos para emocionar mais do que informar. Talvez o problema da política brasileira não seja apenas a existência de candidatos dispostos a fazer qualquer coisa para vencer. Talvez seja a naturalidade com que passamos a aceitar esse jogo, desde que o vencedor confirme aquilo em que já desejávamos acreditar.
É confortável imaginar que os grandes desvios da política acontecem quando alguém compra votos, frauda licitações ou ocupa as manchetes policiais. Esses episódios existem e merecem o rigor da lei. Mas a erosão da democracia começa muito antes, num terreno menos visível e, por isso mesmo, mais perigoso. Ela começa quando a verdade deixa de ser indispensável, quando a coerência se torna um detalhe de campanha e quando o eleitor passa a premiar quem fala melhor, não quem demonstra estar mais preparado para governar.
A política aprendeu rapidamente como funciona a atenção humana. Descobriu que indignação produz mais engajamento do que equilíbrio, que frases curtas circulam mais do que ideias consistentes e que um bom vídeo de trinta segundos pode render mais votos do que anos de trabalho sério. Não há ilegalidade nisso. O problema é outro. Aos poucos, deixamos de escolher representantes e passamos a consumir personagens. A autenticidade perdeu espaço para a performance, e a competência passou a disputar espaço com a capacidade de viralizar.
Mas seria injusto responsabilizar apenas quem disputa uma eleição. Toda estratégia eficiente depende de alguém disposto a aceitá-la. Nenhum discurso simplista prospera diante de um eleitor exigente. Nenhuma promessa absurda sobrevive a uma sociedade que pergunta como será financiada. Nenhum salvador se sustenta onde existem cidadãos interessados em conhecer a trajetória, as ideias e as contradições de quem pede seu voto. A qualidade da política nunca supera, por muito tempo, o nível de exigência da população.
Talvez seja por isso que campanhas eleitorais tenham se tornado um excelente retrato dos nossos próprios hábitos. Pesquisamos avaliações antes de comprar um eletrodoméstico. Assistimos comparativos antes de trocar um telefone celular. Lemos comentários antes de reservar um restaurante. Mas, quando chega a hora de escolher quem administrará bilhões em recursos públicos, definirá prioridades para a saúde, a educação, a infraestrutura e a segurança, aceitamos decidir a partir de um vídeo bem editado, de um corte nas redes sociais ou da indicação apaixonada de alguém que sequer conhece o funcionamento da máquina pública. Não estamos apenas elegendo representantes. Estamos revelando quais critérios consideramos suficientes para entregar o futuro.
Existe uma diferença importante entre convencer e seduzir. Convencer exige argumentos. Seduzir exige atalhos. A boa política suporta perguntas difíceis. A política ruim prefere emoções rápidas. Uma convida ao debate. A outra transforma o eleitor em plateia. Talvez seja justamente aí que muitas democracias comecem a perder qualidade: não quando faltam candidatos honestos, mas quando sobra disposição para trocar reflexão por entretenimento.
Há uma frase repetida à exaustão segundo a qual todo povo tem o governo que merece. Ela simplifica uma realidade muito mais complexa e frequentemente serve para culpar quem já sofre as consequências de escolhas ruins. Ainda assim, há uma verdade incômoda que não pode ser ignorada: toda sociedade ajuda a construir o ambiente político em que viverá. Quando premiamos o improviso, multiplicamos improvisadores. Quando normalizamos a incoerência, ela deixa de ser exceção e passa a ser método. E quando aceitamos que vencer é mais importante do que merecer vencer, não estamos apenas rebaixando uma eleição. Estamos reduzindo o valor da própria cidadania.
No fim, talvez a democracia nunca tenha estado à venda. O que frequentemente entra em liquidação é algo muito mais precioso: a consciência crítica do eleitor. E, como acontece com quase tudo o que parece barato demais, o preço verdadeiro só aparece depois que a compra já foi feita.