Opinião

Democracia exige mais do que opinião

A cada novo ciclo eleitoral, o Brasil revive um comportamento curioso e, ao mesmo tempo, preocupante: milhões de pessoas se dizem decepcionadas com a política, mas poucas compreendem, de fato, a profundidade da responsabilidade que carregam ao apertar um número na urna. Em 2026, não estaremos escolhendo apenas um presidente da República. Estaremos decidindo quem governará os estados, quem legislará em Brasília, quem representará os interesses regionais no Senado e quem ocupará cadeiras estratégicas nas Assembleias Legislativas. Em outras palavras, não será apenas uma eleição. Será uma definição de rumo.

Há uma tendência perigosa de transformar a política em torcida organizada. O eleitor acompanha debates presidenciais, reproduz slogans, se apaixona por discursos e esquece que um país não se governa sozinho. O presidente tem importância inegável, mas a engrenagem institucional depende, e muito, de governadores, senadores, deputados federais e estaduais. São eles que aprovam leis, fiscalizam, direcionam recursos, moldam políticas públicas e, muitas vezes, determinam o que chega ou não à vida real das pessoas. Um voto mal pensado para deputado pode anular, na prática, aquilo que se desejava para o Executivo.

Como empresário, aprendi que nenhuma decisão relevante pode ser tomada movida apenas pela emoção do momento. Quem administra sabe que escolhas impulsivas custam caro. Na política, o prejuízo é coletivo. Votar exige critério, coerência e análise de histórico. Não basta gostar da fala de alguém ou se identificar com um vídeo nas redes sociais. É preciso perguntar: quais valores essa pessoa sustenta? O que ela já fez? Como votou? Quem a financia? Que interesses representa? Porque o discurso pode emocionar, mas é o histórico que revela caráter político.

Como católico, também acredito que votar é um ato moral. A fé nos ensina sobre responsabilidade, prudência e compromisso com o bem comum. Não se trata de transformar religião em palanque, mas de compreender que toda escolha pública carrega implicações éticas. Um voto não deve nascer do ódio, da vingança ou da idolatria política. Deve nascer da consciência. Quem escolhe representantes escolhe, ainda que indiretamente, prioridades para a educação, para a economia, para a segurança, para a dignidade humana e para os valores que orientarão uma sociedade.

Talvez o maior erro do eleitor brasileiro seja terceirizar a culpa depois das eleições. Reclama-se do Congresso sem lembrar em quem se votou para deputado. Critica-se decisões do Senado como se seus membros tivessem surgido por geração espontânea. Condena-se o estado da política enquanto muitos sequer lembram o nome dos próprios representantes. Democracia não funciona no automático. Ela exige participação antes, durante e depois do voto.

Em 2026, mais do que escolher nomes, teremos a oportunidade de escolher direção. E talvez seja o momento de abandonar a superficialidade das paixões políticas para assumir a maturidade das decisões conscientes. Afinal, governantes não aparecem por acaso. Eles chegam onde chegam porque alguém, um dia, decidiu ser representado por eles.