Coluna da Paçoca

Democracia não é só escolher

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Eu, Paçoca, tenho algumas dúvidas sobre os humanos. Vocês inventaram a democracia, mas ainda parecem não ter chegado a um acordo sobre como usá-la. A Matilda diz que talvez seja porque democracia exige uma coisa que anda em falta: disposição para conviver com quem pensa diferente. Eu acho que ela foi elegante. Eu diria apenas que vocês precisam aprender a não rosnar uns para os outros por qualquer coisa.

Nós, cachorras, temos uma regra simples em casa: podemos discordar sobre quem fica com o melhor lugar no sofá, mas isso não significa que a outra deixou de ser família. Eu, inclusive, considero o sofá território estratégico. A Matilda prefere a janela. E seguimos muito bem, obrigada.

Talvez a democracia pudesse aprender alguma coisa conosco.

Democracia não é ganhar sempre. Não é fazer tudo do nosso jeito, escolher apenas as opiniões que nos agradam ou considerar inteligente somente quem concorda conosco. É aceitar que outras pessoas também têm voz, mesmo quando gostaríamos muito de colocar um travesseiro sobre ela por cinco minutinhos.

A Matilda costuma dizer que uma sociedade democrática precisa de escuta. Eu concordo, embora ache que os humanos poderiam começar treinando dentro de casa. Escutar alguém não significa concordar com tudo. Significa reconhecer que o outro existe, que pode pensar diferente e que ainda assim merece respeito.

Nós também observamos uma coisa curiosa: em época de eleição, todo mundo promete ouvir o povo. Depois da eleição, alguns parecem desenvolver uma surdez seletiva. Eu, Paçoca, considero isso um problema sério. Até porque, quando quero alguma coisa, faço questão de deixar bastante claro. Um latido resolve muita coisa.

Mas democracia não pode depender do volume de quem grita mais.

Ela precisa de instituições fortes, regras respeitadas, liberdade para discordar, responsabilidade para escolher e, principalmente, cidadãos que entendam que o voto não é uma autorização para abandonar a consciência na urna.

A Matilda, que é mais contemplativa, sempre lembra que democracia também é paciência. Nem tudo muda na velocidade que gostaríamos. Nem toda escolha produz o resultado esperado. Nem toda pessoa eleita será aquilo que prometeu ser. E justamente por isso é preciso acompanhar, cobrar, questionar e participar.

Eu acrescentaria uma coisa: não entreguem a democracia inteira para os políticos. Eles já têm trabalho suficiente para cuidar da própria parte.

Democracia é nossa também.

Está na maneira como tratamos quem discorda, na coragem de reconhecer um erro, na disposição de ouvir antes de julgar e na capacidade de defender um princípio mesmo quando ele favorece alguém de quem não gostamos.

No fim, talvez seja isso que os humanos ainda estejam aprendendo: democracia não é o direito de fazer tudo o que queremos. É a maturidade de conviver quando o outro quer algo diferente.

Nós, Paçoca e Matilda, seguimos aqui observando.

Eu, com a desconfiança de sempre.

Ela, com a elegância de quem ainda acredita nos humanos.

E as duas com a certeza de que, se vocês conseguissem discutir política sem transformar qualquer divergência em guerra, já seria um belo começo.

Paçoca & Matilda

Oito patas, quatro olhos atentos e uma pequena sugestão: antes de querer vencer a discussão, talvez seja interessante aprender a conversar.

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