Opinião

Dinheiro de quem?

A política brasileira criou uma espécie de ritual em torno das emendas parlamentares. O deputado anuncia, o prefeito agradece, a entidade beneficiada comemora, as redes sociais fazem o restante e, por alguns dias, parece que o dinheiro saiu diretamente do bolso de quem fez o anúncio. A fotografia fica bonita, a legenda fala em conquista e a população é convidada a agradecer. Só existe um pequeno problema nessa encenação: o dinheiro não pertence ao parlamentar, ao prefeito nem à entidade que o recebe. É dinheiro do contribuinte. É dinheiro de todos nós.

Então, talvez esteja na hora de trocar a pergunta “quem trouxe a emenda?” por outra, bem menos confortável: “por que o nosso dinheiro foi parar lá?” Quem decidiu? Por quê? Quanto foi efetivamente pago? O que foi entregue? E, principalmente, o que a população ganhou com isso?

Emenda parlamentar é um instrumento legítimo do orçamento e pode atender necessidades reais. O problema começa quando dinheiro público é apresentado como favor pessoal. O político anuncia, a foto circula, o agradecimento vem — e o cidadão quase desaparece da história. Quem paga a conta vira espectador; quem apenas indicou o destino do dinheiro vira benfeitor.

Mas o dinheiro não é do deputado. Não é do prefeito. É nosso. E também não é moeda de troca por voto.

Uma emenda não deveria comprar gratidão, fidelidade política ou voto. Recurso público não é presente e eleitor não é devedor. O parlamentar não está fazendo caridade com dinheiro próprio; está participando da destinação de recursos públicos. E o cidadão não deve um voto a ninguém porque uma obra, um equipamento ou uma verba chegou ao seu município.

Se uma emenda atende uma necessidade real, ótimo. É para isso que o recurso público deve servir. Mas o mérito está no resultado entregue à população — não na fotografia de quem anunciou o dinheiro.

Por isso, já que as emendas existem, vamos entendê-las. Menos aplauso, mais cobrança.

O Portal da Transparência permite acompanhar diferentes etapas da execução, inclusive valores empenhados e pagos, favorecidos, localidade, tipo de emenda e área de atuação. Isso é fundamental porque empenhar não é pagar, pagar não é executar e executar não significa necessariamente resolver um problema. Uma emenda pode ser anunciada com pompa e circunstância e ainda estar muito longe de produzir qualquer benefício concreto para o cidadão. Essa distinção deveria estar estampada em letras maiores do que o nome do parlamentar.

Empenho é, em termos simplificados, uma reserva orçamentária, uma promessa de pagamento. O pagamento é outra etapa. Depois ainda existe a execução do objeto, a entrega do serviço, da obra, do equipamento ou daquilo que foi financiado. E existe, finalmente, aquilo que deveria ser o objetivo de todo esse processo: o resultado.

Uma ambulância entregue não é apenas uma fotografia de entrega. Precisa atender pacientes. Uma obra inaugurada precisa funcionar. Um equipamento comprado precisa ser utilizado. Uma verba destinada à saúde precisa melhorar a saúde. Parece elementar, mas a política brasileira frequentemente transforma o anúncio do recurso no ponto final de uma história que deveria apenas estar começando.

E aqui surge uma questão que merece muito mais atenção da sociedade: quem decide para onde o dinheiro vai? Porque o fato de uma instituição poder receber uma emenda não significa automaticamente que ela seja a prioridade pública. Uma prefeitura pode ter dez necessidades urgentes e receber recursos para uma décima primeira. Uma entidade pode ter capacidade de articulação política extraordinária e uma necessidade legítima, enquanto outra, talvez menos conhecida e menos conectada aos gabinetes, enfrenta uma demanda ainda mais urgente.

Se a escolha do beneficiário depender mais da capacidade de chegar ao parlamentar do que da dimensão do problema que precisa ser resolvido, alguma coisa está fora do lugar.

Isso não significa afirmar que determinada emenda foi irregular ou que determinado beneficiário não merecia o recurso. Significa defender um princípio bastante simples: necessidade pública deveria pesar mais do que conveniência política.

E essa é uma diferença importante. O parlamentar tem legitimidade para participar da definição das emendas dentro das regras orçamentárias. Mas legitimidade não elimina responsabilidade. Pelo contrário. Quanto maior o poder de direcionar recursos, maior deveria ser a disposição para explicar os critérios utilizados.

No ambiente empresarial, ninguém administra dinheiro sem perguntar qual é a finalidade, qual será o custo, qual é o retorno esperado e quem será responsável pela execução. Não porque empresários sejam mais virtuosos, mas porque dinheiro mal aplicado aparece no balanço.

No setor público, existe uma tentação perigosa de imaginar que o dinheiro não tem dono porque tem muitos donos. Tem. O dono é o contribuinte. E justamente porque é de todos, deveria ser tratado com mais rigor, não com menos.

Os números ajudam a entender a dimensão do problema. O Portal da Transparência registra, para 2025, mais de R$ 47 bilhões em valores empenhados em emendas parlamentares e mais de R$ 31,5 bilhões pagos. Em 2026, os valores disponíveis na consulta são parciais, porque o exercício ainda está em andamento. Não é dinheiro pequeno, residual ou simbólico. É uma quantidade de recursos capaz de interferir em políticas públicas e, justamente por isso, não pode ser tratada como uma coleção de favores concedidos por políticos generosos.

E talvez seja aí que a população precise prestar mais atenção.

Emenda não deveria comprar gratidão. O parlamentar não está fazendo caridade. Está participando da destinação de recursos públicos. O prefeito que recebe também não deveria apresentar a verba como um presente pessoal de Brasília ou de São Paulo. Está recebendo dinheiro que será utilizado em uma política pública.

Agradecer institucionalmente é uma coisa. Transformar recurso público em patrimônio eleitoral de quem indicou é outra.

A diferença pode parecer semântica, mas não é. Quando uma emenda vira peça de propaganda pessoal, o cidadão passa a enxergar o político como alguém que “trouxe dinheiro” e não como alguém que exerceu uma função pública.

O resultado é perverso: o parlamentar começa a ser premiado pela capacidade de anunciar recursos, não necessariamente pela qualidade das escolhas que faz.

E quem decide onde colocar o dinheiro também deveria estar disposto a explicar onde não colocou. Porque orçamento é escolha. Se o recurso vai para um lugar, não vai para outro. Se uma área recebe prioridade, outra pode esperar. Se um município recebe determinado investimento, outro talvez fique sem aquele recurso.

Por isso, a discussão sobre emendas não deveria ser apenas “quanto meu deputado trouxe?”, mas também “por que trouxe para cá e não para outra necessidade mais urgente?”

Essa pergunta não é antipolítica. É exatamente o contrário. É uma pergunta democrática.

O Tribunal de Contas da União tem mostrado por que essa fiscalização não é preciosismo. Em auditorias sobre transferências especiais, o TCU encontrou problemas relevantes em parte expressiva das operações examinadas, reforçando a necessidade de transparência, rastreabilidade e controle sobre a aplicação dos recursos. Isso não permite transformar toda emenda em suspeita, mas deveria impedir que qualquer emenda fosse recebida como bênção incontestável.

Dinheiro público precisa ser acompanhado justamente porque é público.

Também precisamos superar outra confusão: entidade beneficiada não é necessariamente sinônimo de entidade privilegiada. Hospitais filantrópicos, organizações sociais e instituições que prestam serviços relevantes podem, evidentemente, precisar de recursos públicos. A questão é saber quais são os critérios, quais contrapartidas existem, como os recursos serão aplicados, quem fiscalizará e qual resultado será entregue.

Uma boa causa não torna desnecessária a prestação de contas. Pelo contrário. Quanto mais importante a causa, maior deveria ser o cuidado com o dinheiro destinado a ela.

No final, a pergunta mais importante não deveria ser quem conseguiu a emenda, quem apareceu na foto ou quem publicou primeiro nas redes sociais. Deveria ser outra: o cidadão que precisava daquele serviço percebeu alguma mudança?

Se percebeu, ótimo. O dinheiro cumpriu sua finalidade e deve ser reconhecido como investimento público bem executado.

Se não percebeu, alguma coisa precisa ser explicada.

É nesse ponto que o eleitor também precisa amadurecer. Não deveria agradecer automaticamente por uma emenda. Deveria acompanhar. Não deveria se impressionar com o valor anunciado. Deveria verificar quanto foi efetivamente pago. Não deveria olhar apenas o nome de quem indicou. Deveria procurar o beneficiário, a finalidade e a execução.

O próprio Portal da Transparência permite esse acompanhamento, inclusive integrando informações sobre emendas, convênios e o ciclo da despesa.

A política talvez não goste muito dessa mudança de comportamento. É muito mais fácil entregar uma placa do que explicar um relatório. É mais simples anunciar milhões do que demonstrar o resultado de cada real. É mais fotogênico cortar uma fita do que responder por que determinada prioridade foi escolhida.

Mas é justamente aí que começa a cidadania adulta.

Como empresário, aprendi que dinheiro não se mede pela quantidade que entra na planilha, mas pelo resultado que produz. O setor público deveria pensar da mesma maneira.

Recurso público sem resultado é apenas despesa com uma boa narrativa.

Por isso, antes de aplaudir o próximo anúncio de uma emenda parlamentar, talvez valha fazer três perguntas bastante inconvenientes: quem decidiu, por que decidiu e o que foi entregue?

Se houver boas respostas, não há motivo para desconfiança. Há motivo para reconhecimento.

Se não houver, talvez a fotografia mereça menos aplausos e mais lupa.

Porque emenda parlamentar não é presente de político.

É dinheiro do povo passando pelas mãos do poder. E quem passa a mão nesse dinheiro tem obrigação de explicar exatamente para onde ele foi.