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Elas votam. Mas quem decide?

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A política brasileira tem uma contradição que já deveria nos causar mais desconforto: as mulheres são maioria do eleitorado, participam das eleições, discutem políticas públicas, sustentam famílias, ocupam universidades, empresas, profissões liberais, organizações sociais e praticamente todos os espaços de produção da vida coletiva, mas continuam sub-representadas justamente onde as decisões que organizam essa vida são tomadas. Não se trata apenas de contar quantas mulheres ocupam cadeiras no Legislativo ou cargos no Executivo. A questão mais profunda é outra: por que uma sociedade em que elas participam tanto da construção cotidiana do país ainda encontra tantas dificuldades para aceitar que elas também disputem, exerçam e sustentem o poder? A resposta não está em uma suposta falta de interesse feminino pela política, mas em um sistema que durante muito tempo foi construído por homens, para homens e segundo códigos de comportamento que ainda determinam quem parece naturalmente preparado para mandar.

Existe uma diferença importante entre permitir a entrada e oferecer condições reais para permanecer. A mulher pode se candidatar, aparecer na urna e fazer campanha, mas isso não significa que tenha recebido as mesmas condições políticas para transformar candidatura em mandato e mandato em influência. Dinheiro, estrutura partidária, tempo de televisão, redes de apoio, alianças, presença territorial e capacidade de construir capital político não surgem no dia em que alguém decide disputar uma eleição. São construídos durante anos, muitas vezes dentro de estruturas partidárias nas quais as posições de maior influência continuam concentradas. Por isso, reduzir a baixa presença feminina à falta de candidatas interessadas é uma explicação confortável demais. Ela transfere para as mulheres a responsabilidade por uma desigualdade que também é produzida pelas instituições.

Há ainda um mecanismo menos visível, mas talvez mais poderoso: o modo diferente como homens e mulheres são julgados quando ocupam o mesmo espaço de poder. Um homem determinado pode ser percebido como liderança. Uma mulher com a mesma postura pode ser considerada autoritária. Ele pode ser visto como ambicioso; ela, como alguém que quer aparecer. Ele pode falar duro e ser reconhecido como firme; ela corre o risco de ser chamada de agressiva. A competência masculina costuma ser presumida até que se prove o contrário. A feminina, muitas vezes, precisa ser demonstrada repetidamente. Não é necessário acreditar que todos façam isso conscientemente. É justamente porque esses filtros funcionam de maneira tão cotidiana que são difíceis de perceber.

E existe uma cobrança adicional que raramente aparece nos discursos sobre representação: a mulher que entra na política não deixa de ser cobrada pelos papéis que desempenhava antes dela. Espera-se que seja profissional competente, mãe presente, companheira disponível, filha atenta, pessoa emocionalmente equilibrada e, agora, também agente pública capaz de suportar exposição, críticas e negociações. A política cobra tempo, presença e disponibilidade. A vida privada também. Para muitos homens, a ascensão política ainda pode contar com uma estrutura familiar que absorve parte dessas demandas. Para muitas mulheres, a entrada no poder acrescenta uma jornada a uma agenda que já estava cheia. O problema não é que mulheres não estejam preparadas para a política. Talvez seja que a política ainda esteja pouco preparada para a realidade das mulheres.

Mas há uma questão que também precisa ser colocada diante do eleitorado. É tentador atribuir toda a responsabilidade aos partidos, às estruturas de poder e à cultura política, porque isso nos permite observar o problema como se estivesse sempre do lado de fora. Só que a urna também revela escolhas sociais. O eleitor não vota apenas em propostas. Vota em percepções, identidades, histórias, reputações e expectativas. E ainda carrega, muitas vezes sem perceber, critérios diferentes para avaliar homens e mulheres. A pergunta que merece ser feita é incômoda: quantas vezes exigimos de uma candidata uma trajetória impecável, uma postura equilibrada e uma competência extraordinária enquanto aceitamos de um candidato homem um currículo muito mais irregular porque já consideramos natural que ele ocupe aquele lugar?

A discussão, portanto, não deveria terminar na defesa abstrata de mais mulheres na política. Representação não é um prêmio de consolação nem uma estatística destinada a tornar o Parlamento mais bonito. Mulheres diferentes também terão visões políticas diferentes, interesses diferentes e posições ideológicas diferentes. Não existe uma maneira única de uma mulher fazer política, assim como não existe uma pauta que pertença naturalmente a todas elas. O que importa é que a sociedade não transforme o gênero em uma barreira silenciosa para a disputa de poder. Democracia não significa que todos pensem igual. Significa que diferentes grupos tenham condições reais de participar da decisão sobre os rumos que todos terão de seguir.

Talvez por isso a pergunta do título seja mais incômoda do que parece. Elas votam. Elas trabalham. Elas pagam impostos. Elas educam filhos. Elas administram empresas, escolas, hospitais, repartições, casas e organizações. Elas estão presentes em praticamente todas as engrenagens que fazem uma cidade funcionar. Mas, quando chega a hora de decidir orçamento, prioridades, leis, investimentos e políticas públicas, sua presença ainda diminui. Não é uma ausência natural. É uma escolha social que se repete por mecanismos que já conhecemos, mas que frequentemente preferimos não confrontar.

Uma democracia madura não deveria precisar escolher entre competência e representação. Deveria simplesmente permitir que a competência fosse julgada sem que o gênero viesse antes dela. Enquanto uma mulher precisar provar duas vezes que merece a cadeira que um homem ocupa sem precisar explicar por que deveria estar sentado nela, a democracia continuará funcionando, mas com uma parte importante da sociedade participando mais como eleitora do que como autora das decisões. E talvez essa seja a pergunta que realmente incomoda: se elas são maioria na hora de escolher, por que ainda são minoria na hora de decidir?