Opinião

Farmar aura é um problema?

De tempos em tempos, os adultos descobrem uma nova mania dos jovens e decretam que a civilização está em risco. A da vez é “farmar aura”. A expressão nasceu no universo dos games, em que farmar significa acumular recursos ou pontos repetindo determinadas ações. Fora das telas, virou uma brincadeira: fazer algo considerado estiloso, corajoso, engraçado, gentil ou simplesmente admirável rende “aura”. Acertou uma cesta impossível? Ganhou aura. Ajudou alguém? Ganhou aura. Tentou impressionar e passou vergonha? Perdeu aura. Não existe placar oficial, prêmio ou grande filosofia por trás disso. É uma espécie de reputação imaginária transformada em jogo.

E talvez justamente por ser tão bobo seja tão inocente. Em algumas cidades, jovens passaram a organizar brincadeiras e até competições presenciais para “farmar aura”. Naturalmente, apareceram adultos preocupados, críticas nas redes sociais e manifestações tratando o fenômeno como mais um sintoma da decadência das novas gerações. Mas, diante dos problemas reais enfrentados por crianças e adolescentes, é difícil compreender tamanho incômodo. Se um grupo de jovens resolve sair de casa para correr, brincar, fazer poses, inventar desafios e disputar quem tem mais “aura”, talvez seja melhor comemorar antes de procurar uma tragédia escondida ali.

Nossos jovens convivem com problemas muito mais sérios. Drogas chegam cada vez mais cedo. Violência faz parte da realidade de muitas comunidades. A sexualização precoce encontra terreno fértil nas redes sociais. Muitos adolescentes olham para o futuro e enxergam poucas perspectivas. E há ainda uma epidemia silenciosa dentro de nossas próprias casas: crianças passando horas e horas diante de celulares, tablets, videogames e redes sociais. Sono, concentração, convivência familiar, atividade física e socialização acabam disputando espaço com uma tela que nunca se cansa de oferecer o próximo vídeo.

Nesse contexto, crianças e adolescentes inventarem uma brincadeira presencial parece menos um problema e mais uma boa notícia. Toda geração teve suas modas incompreensíveis para quem estava alguns anos acima. Já houve bolinha de gude, figurinha, pião, taco, queimada, ioiô, bambolê, tazos e tantas outras febres que pareciam importantíssimas por algumas semanas e depois simplesmente desapareceram. Brincar também significa criar códigos próprios, estabelecer regras aparentemente sem sentido e pertencer a um grupo. Talvez “farmar aura” seja apenas a versão desta geração para algo que crianças sempre fizeram.

Há, inclusive, uma ironia interessante na crítica dos adultos. Somos nós que construímos uma sociedade obcecada por aparência, seguidores, curtidas, dinheiro, carros, cargos e status. Somos nós que passamos horas olhando o celular durante o jantar, discutimos agressivamente política nas redes sociais, compartilhamos notícias sem conferir, transformamos celebridades em referências e frequentemente medimos sucesso pela aprovação dos outros. Depois olhamos para crianças atribuindo pontos imaginários umas às outras e perguntamos preocupados: “Onde foi que essa geração errou?”.

Talvez seja conveniente fiscalizar as brincadeiras dos jovens porque isso evita examinar os problemas que os adultos efetivamente lhes entregaram. Uma criança querendo ganhar “aura” ao fazer uma cesta bonita dificilmente representa uma ameaça à sociedade. Muito mais preocupante é uma sociedade adulta incapaz de oferecer segurança, educação de qualidade, perspectivas profissionais, espaços públicos para brincar e exemplos razoáveis de convivência. Se quisermos proteger nossos jovens, há batalhas muito mais importantes esperando do lado de fora.

Farmar aura pode ser passageiro, estranho e até ridículo aos olhos de quem já passou da idade. Ótimo. Brincadeiras infantis não precisam da aprovação dos adultos para cumprir sua função. Entre tantos desafios que realmente ameaçam a juventude, ver crianças largando a tela por algum tempo, encontrando amigos e inventando uma competição inocente deveria render pontos, não críticas. Talvez, antes de perguntar quanta aura nossas crianças estão farmando, seja melhor perguntar quanta aura nós, adultos, estamos perdendo.


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