Imagine uma fronteira
As imagens recentes de Ceuta impressionam. Milhares de marroquinos atravessando a fronteira, muitos jovens, famílias e menores desacompanhados tentando alcançar território espanhol. A reação imediata costuma ser simples: a Espanha precisa proteger suas fronteiras. Precisa mesmo. Todo Estado tem esse direito. Mas há uma pergunta anterior, muito menos confortável: como uma fronteira espanhola foi parar no norte da África?
Ceuta pertence à Espanha há séculos, mas sua existência como enclave europeu em território africano simboliza uma relação histórica muito mais ampla. No início do século XX, a Espanha controlou parte significativa do norte do Marrocos por meio de seu protetorado. A região do Rif foi palco de ocupação militar, exploração econômica e guerras violentas. Marrocos tornou-se independente em 1956, mas independência política não apaga automaticamente as consequências de décadas de domínio estrangeiro.
Seria simplista atribuir toda a pobreza marroquina à Espanha. A França teve participação colonial ainda maior, e o próprio Marrocos responde pelas escolhas políticas e econômicas feitas desde a independência. Mas também seria conveniente demais fingir que as antigas potências europeias nada têm a ver com as estruturas econômicas e territoriais que ajudaram a construir. Durante séculos, europeus atravessaram o Mediterrâneo para ocupar, controlar e explorar territórios africanos. Hoje se incomodam quando africanos fazem o caminho inverso em busca de oportunidades.
Ceuta transforma esse paradoxo em uma imagem concreta. De um lado da cerca está a União Europeia. Do outro, um país marcado por desigualdades regionais, desemprego juvenil e uma diferença enorme de renda e oportunidades em relação à Europa. Poucos metros podem separar duas perspectivas de vida completamente diferentes.
Em 1971, John Lennon lançou Imagine, uma canção que projetava um mundo menos dividido por países, fronteiras e conflitos. Mais de meio século depois, Ceuta parece a fotografia inversa daquele sonho.
Isso não significa defender fronteiras abertas. Nenhum país consegue receber indefinidamente todos aqueles que desejam entrar. A Espanha tem o direito e a obrigação de organizar a imigração, preservar sua soberania e combater redes de tráfico humano. Mas direito não elimina responsabilidade.
Talvez o verdadeiro desafio não seja imaginar um mundo sem fronteiras, como cantou Lennon, mas imaginar fronteiras que não sirvam também para separar memória e conveniência. A Espanha pode decidir quem atravessa a cerca de Ceuta. O que não deveria poder fazer é esquecer por que existe uma cerca espanhola no continente africano — e tudo o que aconteceu do outro lado dela.