Mudar o rumo é apenas o começo
O fato de ganhar uma eleição pode mudar quem governa, mas raramente esse fator isolado muda um país. E talvez seja exatamente aí que comece a discussão mais importante sobre o Brasil que teremos daqui para frente.
Depois de décadas em que a esquerda ocupou o centro do debate político nacional, há sinais claros de encerramento de um ciclo. Não porque seus eleitores desapareceram ou porque suas ideias deixarão de existir, mas porque boa parte da sociedade parece ter chegado a uma conclusão incômoda: não basta continuar oferecendo respostas conhecidas para problemas que continuam, teimosamente, os mesmos.
Uma mudança de rumo pode ser necessária. Mas ela não vale muito se nos levar apenas de um grupo político para outro.
Não vejo esse momento como revanche. Nunca acreditei que um país avance quando uma metade precisa derrotar a outra para se sentir vencedora. O que espero é algo mais difícil: que a mudança de poder seja também uma mudança de postura. Trocar os ocupantes dos gabinetes e preservar os mesmos vícios seria apenas mudar os nomes sem mudar o destino.
Quem empreende conhece uma realidade que a política às vezes prefere ignorar. Todo mês a conta chega. É preciso pagar salários, impostos, fornecedores, investir, assumir riscos e fazer escolhas. Quando uma decisão dá errado, não existe discurso capaz de fechar o caixa. Talvez seja por isso que eu tenha tanta dificuldade em aceitar a ideia de que, no poder público, responsabilidade financeira possa ser tratada como uma questão secundária. Dinheiro público também acaba. E, antes de ser público, esse dinheiro saiu do trabalho de alguém.
O Brasil precisa recuperar essa noção elementar de responsabilidade. Gastar melhor, combater desperdícios, enfrentar privilégios e criar condições para que produzir e investir seja mais simples. Não precisamos de um Estado ausente, tampouco de um Estado que queira estar em todos os lugares. Precisamos de um Estado que funcione onde realmente é necessário e saiba não atrapalhar onde a sociedade consegue caminhar com as próprias pernas.
Também acredito profundamente no trabalho como instrumento de dignidade e independência. Quem precisa de ajuda deve encontrá-la. Uma sociedade decente não abandona quem ficou para trás. Mas existe uma diferença importante entre estender a mão e transformar dependência em projeto permanente. A melhor política social será sempre aquela que, depois de amparar, oferece condições para que a pessoa possa seguir sem precisar daquele amparo.
Há outras escolhas que não podem mais ser adiadas. Educação precisa voltar a significar aprendizado. Segurança pública precisa proteger quem vive dentro da lei e enfrentar o crime sem constrangimento. Empreender não pode continuar sendo uma batalha contra burocracias criadas por quem muitas vezes nunca precisou abrir uma empresa, contratar alguém ou fechar uma folha de pagamento.
E há algo anterior à economia. Minha formação cristã me ensinou que liberdade sem responsabilidade facilmente se transforma em egoísmo e que solidariedade sem autonomia pode se transformar em dependência. Família, comunidade, trabalho, fé e dignidade humana não são conceitos antigos que precisam ser escondidos para parecermos modernos. São algumas das estruturas que mantêm uma sociedade de pé quando governos passam — e todos passam.
Por isso, não acredito que o encerramento de um ciclo da esquerda produza, sozinho, um Brasil melhor. Nenhuma mudança política possui esse poder. O que existe agora é uma oportunidade de corrigir escolhas, abandonar ideias que não funcionaram e preservar aquilo que deu resultado, independentemente de quem tenha feito.
Também não quero uma direita que simplesmente reproduza, com sinal trocado, os defeitos que passou anos criticando. Se chegar ao poder para aparelhar, gastar sem responsabilidade, proteger os seus e tratar adversários como inimigos, terá apenas trocado a placa na porta.
O Brasil não precisa mudar de lado para continuar parado. Precisa mudar de rumo.
E talvez essa seja a responsabilidade maior deste novo ciclo: provar que alternância de poder pode significar mais do que substituir quem governa. Pode significar recuperar princípios simples que nunca deveriam ter saído de moda: responsabilidade, trabalho, liberdade, solidariedade e compromisso com quem virá depois de nós.
Porque mudar a direção é apenas o começo. O que realmente importa é aonde queremos chegar.