Complexa D+

O corpo que a sociedade prefere não entender

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Durante muito tempo, falar sobre obesidade foi quase sempre falar sobre culpa. A pessoa acima do peso precisava explicar o que comia, quanto comia, por que não fazia exercícios e, principalmente, por que não conseguia emagrecer. Como se o corpo fosse uma espécie de currículo moral e os quilos a mais denunciassem falta de disciplina, preguiça ou descontrole. A medicina avançou, a ciência passou a compreender melhor os mecanismos envolvidos no ganho e na manutenção do peso e novas formas de tratamento surgiram, mas uma parte do julgamento social permaneceu praticamente intacta. Continuamos falando de obesidade como se fosse uma escolha individual simples, justamente quando já sabemos que a realidade é muito mais complexa.

O primeiro equívoco está em imaginar que obesidade possa ser compreendida apenas pela diferença entre o que uma pessoa come e o que ela gasta. Essa conta existe, evidentemente, mas o organismo que realiza essa conta não é uma calculadora. Fome, saciedade, sono, genética, metabolismo, medicamentos, alterações hormonais, saúde mental, ambiente alimentar, sedentarismo e condições sociais participam de uma equação que varia de uma pessoa para outra. Isso não elimina a responsabilidade individual sobre os hábitos, mas coloca essa responsabilidade em seu devido lugar. Cuidar da saúde exige escolhas, mas escolhas não acontecem no vácuo.

Existe uma contradição particularmente cruel na forma como tratamos a obesidade. De um lado, vivemos em um ambiente que oferece comida altamente palatável, barata, acessível e disponível praticamente o tempo todo. De outro, responsabilizamos quase exclusivamente o indivíduo quando ele não consegue manter o corpo dentro de determinados parâmetros. A mesma sociedade que transforma comida em entretenimento, recompensa, conforto e conveniência cobra autocontrole absoluto de quem consome. É uma equação conveniente demais para quem vende e moralizante demais para quem compra.

A questão também não pode ser reduzida à aparência. Obesidade é uma condição associada a maior risco de diversas doenças e pode afetar qualidade de vida, mobilidade, sono, saúde cardiovascular e metabólica, entre outros aspectos. Mas transformar esse fato em argumento para humilhar alguém é uma perversão do próprio conceito de saúde. Dizer que uma condição pode aumentar riscos não autoriza ninguém a tratar uma pessoa como se ela fosse o seu diagnóstico. O indivíduo continua sendo maior do que seu peso, assim como alguém com hipertensão não passa a ser definido pela pressão arterial.

Talvez por isso seja tão problemática a cultura do antes e depois. A fotografia de alguém que perdeu muitos quilos funciona nas redes sociais como uma narrativa de redenção: antes, o corpo supostamente errado; depois, o corpo finalmente aceito. O emagrecimento passa a ser apresentado não apenas como melhora clínica, mas como conquista moral. A pessoa recebe elogios por ter diminuído de tamanho, como se seu valor tivesse aumentado na mesma proporção em que a balança diminuiu. E assim, sem perceber, ensinamos que determinados corpos merecem mais reconhecimento social do que outros.

As mulheres conhecem particularmente bem essa lógica. Durante décadas, foram submetidas a uma indústria inteira dedicada a convencer que o corpo nunca estava suficientemente bom. Dietas, produtos, procedimentos, roupas, suplementos, aplicativos, cirurgias e agora medicamentos passaram a disputar um mercado construído sobre uma insatisfação quase permanente. O avanço terapêutico é bem-vindo quando trata uma doença. O problema aparece quando a medicina passa a ser incorporada à mesma engrenagem que transforma insegurança corporal em consumo. Entre tratar obesidade e vender a ideia de que ninguém deveria ter gordura existe uma distância enorme, e misturar as duas coisas é perigoso.

Também precisamos abandonar a fantasia de que todo tratamento precisa produzir uma transformação visível para ser considerado bem-sucedido. Melhorar exames, reduzir riscos cardiovasculares, controlar glicemia, recuperar mobilidade, dormir melhor, diminuir dores ou simplesmente interromper uma trajetória de ganho de peso podem ser resultados clinicamente importantes mesmo quando a fotografia do espelho não produz uma transformação cinematográfica. Saúde não é sinônimo de magreza. E magreza, por si só, também não é sinônimo de saúde.

O debate sobre obesidade ganhou novas dimensões com a chegada de medicamentos mais eficazes para controle do peso. Eles representam um avanço relevante e podem mudar a vida de muitas pessoas quando utilizados com indicação e acompanhamento adequados. Mas a existência de uma ferramenta terapêutica não deveria nos fazer esquecer a doença que ela trata. Tampouco deveria transformar o tratamento em uma corrida para alcançar um padrão estético. Quando a preocupação deixa de ser a saúde e passa a ser simplesmente caber em determinado corpo, até uma tecnologia médica pode acabar servindo à velha lógica da insatisfação.

No fundo, a obesidade nos obriga a discutir algo que vai muito além da balança. Ela revela uma sociedade que produz excesso e, ao mesmo tempo, exige contenção; que oferece conveniência e cobra disciplina; que celebra o emagrecimento e estigmatiza quem não consegue alcançá-lo; que diz defender saúde enquanto frequentemente confunde saúde com aparência. Talvez seja hora de abandonar tanto a crueldade do julgamento quanto a ingenuidade das soluções fáceis.

O corpo não precisa ser romantizado, mas também não precisa ser humilhado. Precisa ser compreendido. E talvez essa seja a mudança mais difícil: aceitar que tratar obesidade significa cuidar de pessoas reais, com histórias, limitações, escolhas, doenças e possibilidades diferentes, e não simplesmente tentar fazer com que todos caibam no mesmo número da balança.