O país que aprendeu a administrar carências
O Brasil gosta de se enxergar como uma potência adiada. A expressão atravessa gerações porque oferece uma espécie de conforto psicológico: se ainda não chegamos lá, é porque o futuro permanece intacto, sempre à espera de um próximo governo, de uma nova reforma ou de um ciclo econômico mais favorável. A promessa da grandeza permanente tem uma vantagem política inestimável: ela impede que a mediocridade cotidiana seja tratada como escândalo. Afinal, quem acredita estar apenas "em construção" tende a normalizar obras que nunca terminam.
O problema é que um país não se mede pelo discurso que faz sobre si mesmo, mas pela qualidade de vida que oferece aos seus cidadãos. E é justamente nesse ponto que o Brasil tropeça há décadas. Ainda convivemos com milhões de pessoas sem acesso adequado ao saneamento básico, transformando doenças evitáveis em rotina e esgoto em paisagem. Não há inovação tecnológica capaz de compensar o fracasso de um Estado que, em pleno século XXI, ainda não universalizou aquilo que deveria ser a mais elementar política de saúde pública. Enquanto discutimos cidades inteligentes, há brasileiros vivendo em bairros onde a chuva mistura água, lixo e esgoto na mesma rua.
A educação segue a mesma lógica. O debate público insiste em girar em torno de métodos pedagógicos, disputas ideológicas e reformas curriculares, quando o problema começa muito antes. O país ainda não conseguiu garantir que uma criança conclua a educação básica dominando leitura, interpretação de texto e raciocínio matemático compatíveis com sua idade. Criamos sucessivas políticas educacionais que mudam conforme muda o governo, como se a escola pudesse sobreviver à volatilidade política. A cada gestão, inaugura-se uma nova prioridade; a cada troca de comando, abandona-se a anterior. O resultado é uma educação que vive em reforma permanente, mas raramente em evolução consistente.
A desigualdade de renda completa esse ciclo perverso. Não porque existam ricos e pobres (isso ocorre em praticamente todas as economias do mundo), mas porque a mobilidade social continua sendo uma exceção. O lugar onde alguém nasce ainda determina, com desconcertante precisão, as oportunidades que terá ao longo da vida. O mérito, frequentemente celebrado nos discursos oficiais, torna-se um conceito desconfortável quando o ponto de partida permanece tão desigual. Não há competição justa quando alguns largam metros à frente e outros sequer encontram a linha de partida.
Enquanto isso, a máquina pública segue produzindo uma curiosa inversão de prioridades. Gastamos enorme energia discutindo temas que rendem manchetes, embates ideológicos e dividendos eleitorais, enquanto questões estruturais permanecem administradas como se fossem inevitáveis. A precariedade deixou de ser encarada como urgência e passou a integrar a paisagem institucional do país. Acostumamo-nos a conviver com hospitais sobrecarregados, escolas insuficientes, infraestrutura deficiente, transporte precário e burocracias que consomem tempo, dinheiro e competitividade. O extraordinário passou a ser encontrar um serviço público que simplesmente funcione.
Talvez a maior tragédia brasileira não seja a ausência de recursos, nem mesmo a falta de capacidade técnica. O Brasil reúne conhecimento, capital humano, potencial econômico e uma arrecadação tributária que figura entre as mais elevadas do mundo em relação ao PIB. O que falta é continuidade. Cada governo sente a necessidade de inaugurar sua própria marca, como se políticas públicas fossem peças de campanha e não projetos de Estado. O calendário eleitoral tornou-se mais determinante que o calendário das necessidades nacionais.
Existe ainda uma característica menos visível, porém igualmente corrosiva: a naturalização do improviso. No Brasil, celebra-se quem resolve crises, raramente quem consegue evitá-las. A gestão preventiva quase nunca rende aplausos; a emergência televisionada, sim. Tornamo-nos especialistas em administrar consequências e surpreendentemente resistentes a eliminar causas. Essa cultura produz governantes ocupados em apagar incêndios que poderiam jamais ter começado.
É justamente aí que reside nossa maior contradição. O país que sonha em ocupar protagonismo global ainda não resolveu problemas elementares de cidadania. Falamos em inteligência artificial enquanto milhões carecem de coleta de esgoto. Celebramos recordes do agronegócio enquanto parte da população enfrenta insegurança alimentar. Debatemos o futuro da economia digital quando uma parcela significativa dos estudantes deixa a escola sem compreender plenamente aquilo que lê.
O Brasil não precisa descobrir seu potencial. Essa etapa já foi superada há muito tempo. O que falta é abandonar a confortável narrativa do país do futuro e enfrentar, com menos marketing e mais consistência, o país do presente. Porque nações não se tornam grandes pela intensidade de seus discursos, mas pela capacidade de transformar necessidades básicas em direitos garantidos. E enquanto insistirmos em tratar o essencial como promessa, continuaremos confundindo esperança com planejamento e vocação com resultado.