Piracicaba também precisa de voz em São Paulo
Piracicaba costuma olhar para Brasília quando o assunto é representação política, mas existe uma distância bem menor que também precisa ser atravessada. A poucos quilômetros daqui, na capital paulista, está a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde são discutidas leis, orçamento, políticas públicas e decisões que chegam diretamente à vida dos piracicabanos. Saúde, segurança, educação, infraestrutura, estradas, formação profissional e desenvolvimento econômico não respeitam os limites do município. Muitas vezes, a decisão que interfere no cotidiano de Piracicaba não passa pela Prefeitura nem por Brasília. Passa por São Paulo.
Isso parece óbvio, mas a política brasileira tem uma habilidade impressionante para complicar o que deveria ser simples. Durante a campanha, todo candidato descobre alguma ligação especial com Piracicaba. Tira fotografia, visita entidades, conversa com empresários, abraça lideranças, promete atenção à cidade e, por alguns meses, Piracicaba parece ser o centro geográfico do universo político. O problema começa depois da eleição, quando os votos já foram contabilizados e a cidade precisa descobrir se aquela proximidade era compromisso ou apenas agenda eleitoral.
É por isso que a discussão sobre representação na ALESP não deveria ser tratada como disputa de torcida ou extensão das brigas partidárias. A pergunta é muito mais prática: quem estará lá quando Piracicaba precisar ser ouvida? Quem defenderá uma demanda regional? Quem acompanhará uma questão de saúde? Quem estará atento aos investimentos em segurança? Quem poderá discutir uma necessidade de infraestrutura? Quem terá disposição para cobrar o governo estadual quando a resposta não vier? E quem continuará acessível depois que desaparecerem os santinhos, os vídeos e as promessas?
Deputado estadual não é despachante de luxo de município, muito menos alguém cuja principal função seja aparecer ao lado de autoridades para provar que tem acesso. Seu papel é muito maior. Ele legisla, fiscaliza o Executivo, participa das discussões orçamentárias e representa a população paulista. Pode ajudar a abrir portas, mas também precisa saber cobrar quando essas portas permanecem fechadas.
Piracicaba conhece a importância dessa articulação. A cidade já recebeu, em diferentes períodos, investimentos e equipamentos cuja concretização dependeu de articulação política com o Estado, como o Hospital Regional, o AME, o Poupatempo, estruturas de segurança, unidades de ensino profissional e intervenções de infraestrutura. Não se trata de atribuir cada conquista a uma pessoa específica, mas de reconhecer uma realidade: quando existe articulação política consistente, uma cidade aumenta sua capacidade de disputar investimentos e decisões.
E isso vale especialmente para uma cidade do tamanho e da importância econômica de Piracicaba. Somos uma região industrial, agrícola, tecnológica, universitária e empreendedora. Temos empresas, trabalhadores, produtores rurais, instituições de ensino e uma cadeia econômica que ultrapassa os limites municipais. Não faz sentido uma cidade com esse peso depender apenas de favores ocasionais ou da boa vontade de quem ocupa o governo estadual.
Como empresário, vejo isso de maneira bastante objetiva. Uma empresa que representa um mercado importante não pode se dar ao luxo de desaparecer da mesa de negociação. Precisa estar presente, acompanhar decisões, apresentar argumentos e cobrar resultados. Uma cidade também. E representação política é justamente isso: presença onde as decisões são tomadas.
Mas existe uma condição fundamental: o representante precisa se lembrar de quem o colocou lá.
O mandato não nasce no Palácio dos Bandeirantes, nem no gabinete de secretário algum. Nasce na urna. O deputado pode e deve dialogar com o governo, independentemente de partido ou ideologia. Governar exige diálogo e oposição responsável também exige interlocução. O que não pode acontecer é o parlamentar confundir proximidade institucional com submissão política e passar a votar automaticamente com o Executivo, qualquer que seja o conteúdo da proposta.
É nesse ponto que o eleitor precisa prestar atenção.
Quando chegam à Assembleia projetos que aumentam impostos, criam ou elevam taxas ou impõem novos custos à população, o deputado deveria lembrar que existe gente do lado de fora pagando essa conta. Quando uma categoria como a dos professores é atingida por uma decisão que considera injusta, o parlamentar deveria ser capaz de avaliar a medida antes de simplesmente seguir a orientação do governo. Não existe problema em votar com o Executivo quando a proposta é boa. O problema é transformar o voto em reflexo automático de quem está no poder.
Aumentar imposto e criar taxa costuma ser muito mais fácil do que melhorar gestão, cortar desperdícios, aumentar eficiência ou encontrar soluções que não transfiram imediatamente a conta para o cidadão. É por isso que a fiscalização parlamentar importa. Quem paga a conta merece saber quem apertou o botão.
Também precisamos tomar cuidado com uma espécie de teatro político que se tornou comum. O deputado aparece permanentemente ao lado de governantes, participa de cerimônias, publica fotografias e transmite a impressão de que possui uma influência extraordinária sobre o Executivo. Mas fotografia não é poder, proximidade não é resultado e abraço não é emenda. Governantes convivem diariamente com dezenas de aliados, prefeitos, secretários, deputados e lideranças. Estar ao lado de alguém não significa necessariamente ser ouvido por ele.
Piracicaba precisa de menos fotografia e mais interlocução.
Precisa de deputados capazes de defender a cidade quando a defesa for conveniente e, principalmente, quando não for. Precisa de representantes que consigam conversar com o governo sem esquecer que não foram eleitos para agradar ao governo. Foram eleitos para representar a população.
E aqui entra uma responsabilidade que também é nossa. O eleitor precisa parar de escolher deputado estadual apenas pelo tamanho da campanha, pela quantidade de placas, pela popularidade nas redes sociais ou pela fotografia com uma autoridade. É preciso olhar trajetória, preparo, coerência, compromisso e capacidade de atuação. Mais importante ainda: acompanhar o mandato depois.
Porque o verdadeiro teste de um deputado não acontece quando ele pede voto em Piracicaba. Acontece quando está em São Paulo diante de uma votação que pode contrariar seus aliados, prejudicar o governo que o apoia ou exigir coragem para defender aquilo que prometeu.
É nesse momento que descobrimos quem representa quem. Piracicaba pode ter mais de um deputado comprometido com a cidade, de diferentes partidos e correntes políticas. Isso é perfeitamente possível e até desejável. O que não podemos aceitar é a ideia de que basta eleger alguém e torcer para que, em algum momento, não se esqueça que recebeu votos aqui.
Mandato não é cheque em branco, é uma procuração temporária que pode e precisa ser cobrada.
Piracicaba é grande demais para ser lembrada apenas em época de eleição. Tem força econômica, produção, universidades, indústria, agricultura, ciência, tecnologia e gente que trabalha todos os dias para fazer a cidade avançar. O mínimo que essa população pode esperar é que seus representantes levem essa força para dentro da Assembleia.
No fim, a questão não é simplesmente ter um nome de Piracicaba em São Paulo.
É ter alguém que, ao chegar lá, não se esqueça de quem o colocou lá.
Porque governantes mudam. Partidos mudam. Alianças mudam. Cargos mudam.
O voto, não. O voto continua sendo do povo.E quem recebeu esse voto deveria se lembrar disso em cada votação, inclusive naquela em que dizer “não” ao governo significar dizer “sim” a quem lhe confiou o mandato.