Opinião

Quando a indústria vai embora, o país fica menor

O Brasil atravessa um momento decisivo para o seu futuro produtivo. Não por falta de reformas anunciadas, mas pela forma como elas vêm sendo conduzidas. A discussão em torno do novo modelo de tributação sobre o consumo e o movimento silencioso de indústrias brasileiras em direção a países vizinhos revelam um mesmo impasse: o descompasso entre a estrutura do Estado e a realidade de quem produz.

A adoção do Imposto sobre Valor Agregado foi apresentada como um avanço institucional. A promessa é conhecida: simplificação, racionalidade, transparência. No entanto, fora do discurso técnico, permanece uma inquietação legítima do setor produtivo. Não se trata apenas da mudança do sistema, mas do ambiente em que essa mudança ocorre. Um ambiente marcado por insegurança jurídica, custos elevados, excesso de obrigações acessórias e um histórico de decisões que raramente consideram o impacto real sobre a indústria.

O chamado período de transição não é neutro. Ele exige adaptação de sistemas, revisão de processos, reorganização administrativa e financeira. Tudo isso demanda investimento, planejamento e tempo. Para grandes grupos, é um desafio. Para médias e pequenas indústrias, pode ser um fator de desequilíbrio. Quando o Estado avança sem calibrar o ritmo, transfere integralmente o ônus da adaptação para quem está na ponta.

É nesse cenário que o deslocamento de indústrias para o Paraguai ganha significado político. Não se trata de fuga oportunista nem de desprezo pelo país de origem. Trata-se de escolha racional diante de ambientes mais previsíveis, com regras claras, estabilidade institucional e menor interferência sobre a atividade produtiva. O Paraguai não oferece milagres. Oferece previsibilidade. E, no mundo empresarial, previsibilidade é valor estratégico.

Cada indústria que deixa o Brasil carrega mais do que máquinas. Leva empregos, arrecadação local, cadeias de fornecedores, conhecimento acumulado e capacidade de inovação. Ainda assim, parte do debate público insiste em tratar essas decisões como falta de compromisso social. É uma leitura confortável, mas equivocada. Empresas não deixam territórios por ideologia. Deixam quando a permanência se torna insustentável.

A nova lógica de arrecadação, somada a mecanismos de controle mais rígidos, evidencia uma relação ainda desconfiada entre Estado e setor produtivo. Ao invés de parceria, predomina a vigilância. Ao invés de estímulo à eficiência, cresce a sensação de punição preventiva. Isso não fortalece o sistema. Fragiliza a base que o sustenta.

Do ponto de vista político, o desafio é claro. Não é possível defender desenvolvimento econômico ignorando quem gera riqueza. Não é possível falar em justiça fiscal sem olhar para a capacidade real de investimento das empresas. E não é razoável esperar que a indústria permaneça imóvel enquanto outros países oferecem condições mais equilibradas.

A evasão industrial e a transição tributária não são fenômenos isolados. São sintomas de um mesmo problema estrutural: a dificuldade do Brasil em construir um ambiente de longo prazo, onde produzir não seja um ato de resistência, mas uma escolha natural.

O país ainda pode corrigir o rumo. Mas isso exige maturidade política, diálogo real com o setor produtivo e decisões que vão além da retórica. Porque, no fim, quando a indústria sai em silêncio, o prejuízo não é empresarial. É coletivo.