Opinião

Quem você segue também escolhe por você?

Durante muito tempo, influência era algo construído lentamente. Nascia da coerência, do exemplo, da reputação sedimentada pelo tempo e da confiança conquistada quase artesanalmente entre palavras e atitudes. Líderes empresariais, religiosos, comunitários e políticos compreendiam, ainda que de formas distintas, que credibilidade exigia consistência. Hoje, porém, testemunhamos uma mudança profunda nesse ecossistema de confiança. A ascensão dos influenciadores digitais inaugurou uma nova dinâmica de poder simbólico, onde alcance frequentemente se confunde com autoridade e popularidade, não raramente, passa a ocupar o espaço antes reservado à experiência, ao conhecimento ou à responsabilidade pública.

O fenômeno, naturalmente, não é em si negativo. Vivemos uma era de democratização das vozes, onde pessoas antes invisíveis passaram a ocupar espaços legítimos de comunicação, entretenimento, educação e mobilização social. Muitos influenciadores produzem conteúdo sério, geram empregos, movimentam economias locais e constroem relações genuínas com seu público. O problema começa quando a lógica da influência ultrapassa os limites da recomendação cotidiana e avança, de maneira pouco transparente, sobre territórios que exigem responsabilidade muito maior, como política, posicionamentos institucionais e até decisões econômicas relevantes.

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum observar influenciadores declarando apoio público a políticos, promovendo candidaturas, defendendo governos, participando de campanhas institucionais ou associando sua imagem a empresas e causas nem sempre compreendidas em profundidade. Em muitos casos, isso acontece de maneira legítima e transparente. Afinal, toda pessoa possui direito às próprias convicções e liberdade para expressá-las. O ponto de atenção, no entanto, está menos no direito de apoiar e mais na forma como esse apoio é construído, apresentado e consumido por milhões de pessoas que frequentemente confundem carisma com credibilidade absoluta.

Talvez estejamos diante de uma das questões mais delicadas do nosso tempo: a terceirização da opinião.

Há uma diferença importante entre ouvir argumentos e simplesmente transferir convicções para figuras públicas cuja principal habilidade, muitas vezes, está na capacidade de engajar emocionalmente uma audiência. Influenciadores são, por definição, excelentes comunicadores. Sabem criar proximidade, despertar identificação e construir relações de confiança que frequentemente parecem íntimas, ainda que mediadas por uma tela. O desafio começa quando essa relação afetiva passa a influenciar decisões políticas, econômicas ou morais sem o devido espaço para reflexão crítica.

Porque política, diferentemente de tendências digitais, não deveria funcionar no ritmo da viralização. Escolher representantes exige algo menos emocional e mais criterioso. Exige leitura de propostas, compreensão de contexto, análise de histórico e, sobretudo, discernimento sobre valores. O mesmo vale para empresas. Quando marcas escolhem influenciadores para legitimar discursos institucionais ou fortalecer reputações, assumem também os riscos dessa associação. Em um ambiente digital tão volátil, onde reputações podem mudar com velocidade impressionante, nem sempre alcance representa alinhamento ético, credibilidade ou responsabilidade social.

Existe ainda outro ponto pouco debatido e profundamente relevante: a banalização do endosso. Vivemos um tempo onde quase tudo parece passível de recomendação. Produtos, ideias, estilos de vida, investimentos, hábitos de consumo, opiniões políticas e até posicionamentos morais passaram a circular embalados pela estética da proximidade e da autenticidade cuidadosamente construída. O problema é que confiança é patrimônio delicado. E quando tudo parece patrocinável, cresce inevitavelmente a desconfiança sobre aquilo que é convicção genuína e aquilo que simplesmente atende à lógica comercial do momento.

Como empresário, observo com preocupação e também com senso de responsabilidade esse novo cenário. Empresas sérias não deveriam escolher rostos apenas pelo número de seguidores, mas pela coerência entre discurso, histórico e valores. O mesmo vale para a política. Um candidato apoiado por celebridades digitais pode ganhar visibilidade, mas legitimidade continua sendo algo construído na prática, na trajetória e na capacidade de responder às necessidades reais da população.

Talvez uma das virtudes mais urgentes do presente seja justamente o discernimento. Nem todo apoio é prova de competência. Nem toda influência é sinônimo de autoridade. E nem toda popularidade merece transformar-se automaticamente em capital político ou institucional. Em tempos de excesso de opinião e escassez de profundidade, talvez seja prudente recordar algo que permanece surpreendentemente atual: caráter, coerência e responsabilidade ainda importam.

Porque seguidores podem impressionar. Alcance pode seduzir. Viralizações podem convencer por alguns dias. Mas sociedades saudáveis continuam sendo construídas sobre algo menos instantâneo e muito mais sólido: confiança merecida.