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Estudo da USP mostra como o corpo mantém a glicose mesmo sem carboidratos

Pesquisa com roedores detalha a adaptação do fígado em dietas hiperproteicas e identifica proteínas que passam a comandar a produção de glicose.

É no fígado que ocorre a gliconeogênese, quando o organismo fabrica glicose a partir de outras substâncias; experimentos com gatos e ratos alimentados com dietas hiperproteicas confirmaram a mesma capacidade elevada de produção hepática de glicose Divulgação/Governo de SP
É no fígado que ocorre a gliconeogênese, quando o organismo fabrica glicose a partir de outras substâncias; experimentos com gatos e ratos alimentados com dietas hiperproteicas confirmaram a mesma capacidade elevada de produção hepática de glicose

Quando o organismo é submetido por muito tempo a uma dieta rica em proteínas e totalmente isenta de carboidratos, o fígado muda o comando molecular para manter a produção de glicose, até mesmo durante o jejum. A conclusão é de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), que estudaram essa adaptação metabólica em roedores e publicaram os resultados em outubro no American Journal of Physiology-Endocrinology and Metabolism.

O trabalho dá continuidade a uma linha de investigação iniciada na década de 1970 pelo endocrinologista Renato Helios Migliorini, da FMRP-USP. Na época, a equipe observou que urubus, aves carnívoras que consomem praticamente só proteína, conseguiam manter níveis normais de glicose no sangue mesmo após longos períodos de jejum. A pergunta que surgiu foi como esses animais preservavam a glicemia estável sem ingerir carboidratos. A resposta levou ao estudo do fígado, órgão onde ocorre a gliconeogênese, processo em que o organismo fabrica glicose a partir de outras substâncias, como aminoácidos derivados das proteínas.

Em experimentos posteriores com gatos e ratos alimentados com dietas hiperproteicas, os pesquisadores confirmaram a mesma capacidade elevada de produção hepática de glicose. Mais recentemente, com apoio da Fapesp, o pesquisador João Batista Camargo Neto alimentou camundongos adultos com uma dieta composta por 86% de proteínas, 8% de gordura, 6% de mistura de sais e vitaminas e zero carboidrato durante 30 dias. Ao longo do período, foram monitorados peso, consumo alimentar e glicemia. Desde a primeira semana, os animais apresentaram níveis de glicose mais baixos que os do grupo-controle, mas estáveis. Após 12 horas de jejum, mantiveram a glicemia praticamente inalterada, enquanto os animais com dieta balanceada tiveram queda de aproximadamente 40%.

Os testes moleculares mostraram ainda uma troca de estratégia no fígado. No início da dieta, a produção de glicose era estimulada pelo glucagon, hormônio liberado quando o nível de açúcar no sangue cai. Com o tempo, porém, mesmo com o glucagon elevado, essa via deixou de responder. O fígado se torna resistente à ativação do glucagon. A via de sinalização é bloqueada, explicou o pesquisador. Por volta de 15 dias após a alimentação com a dieta hiperproteica, o fator de transcrição Fox O1 assumiu o comando da produção de glicose pelo fígado, agora dependente da queda da insulina.

Os pesquisadores ainda não sabem por que o organismo muda de estratégia, mas uma das hipóteses é que isso represente uma economia energética. Outro achado foi o aumento da corticosterona, hormônio equivalente ao cortisol em humanos. Quando as glândulas adrenais foram removidas cirurgicamente, os animais em dieta hiperproteica perderam a capacidade de manter a glicemia durante o jejum.