A cada quatro anos, o Brasil volta a acreditar
A Copa do Mundo talvez seja o único evento capaz de transformar especialistas improvisados em patrimônio nacional. Bastam alguns jogos para que o país descubra milhões de técnicos, preparadores físicos, árbitros honorários e estrategistas esportivos profundamente convencidos de que fariam escolhas melhores do que qualquer comissão técnica profissional. O sujeito que até ontem discutia financiamento imobiliário agora domina táticas defensivas europeias com uma segurança quase acadêmica. A vizinha que jamais assistiu a um campeonato estadual desenvolve opiniões firmes sobre posicionamento ofensivo, enquanto aquele tio emocionalmente especialista em absolutamente tudo reaparece, mais uma vez, investido da autoridade quase divina de quem sempre soube exatamente onde o treinador errou. O curioso é que, apesar de toda essa convicção coletiva frequentemente desproporcional, seguimos acreditando. Sempre seguimos.
Porque talvez a Copa jamais tenha sido apenas sobre futebol. O que se move ali é algo mais sofisticado, mais emocional e, curiosamente, mais humano do que noventa minutos diante de uma televisão. Em um país acostumado a conviver com crises, desencantos, polarizações e boletos pouco comprometidos com o equilíbrio emocional nacional, existe algo quase terapêutico na capacidade de interromper temporariamente o peso cotidiano para compartilhar um objetivo comum. Durante algumas semanas, desconhecidos conversam, colegas de trabalho encontram um raro assunto consensual e famílias politicamente incompatíveis descobrem que ainda conseguem discordar civilizadamente, desde que o tema seja a convocação da seleção.
Há também um patriotismo curioso, sazonal e emocionalmente conveniente que reaparece nesse período. Bandeiras saem das gavetas, camisetas amarelas voltam a circular sem grandes constrangimentos e uma certa ideia de pertencimento nacional parece encontrar espaço novamente, ainda que provisório. O Brasil da Copa costuma ser um país ligeiramente mais tolerante consigo mesmo, como se durante alguns jogos conseguíssemos lembrar que talvez ainda exista algo compartilhado entre pessoas tão radicalmente diferentes. É uma espécie de trégua emocional nacional cuidadosamente mediada por uma bola e uma quantidade impressionante de opiniões não solicitadas.
Naturalmente, seria ingenuidade ignorar que a Copa também movimenta interesses bastante pragmáticos. Empresas reaprendem rapidamente a linguagem da emoção coletiva, bancos descobrem inesperada vocação para o patriotismo, marcas falam de união nacional e promoções surgem embaladas pela promessa quase afetiva de fazer parte daquele momento histórico. O comércio se reorganiza, bares lotam, restaurantes adaptam horários e o mercado demonstra, mais uma vez, compreender algo essencial sobre comportamento humano: quando as pessoas acreditam, elas também consomem de maneira diferente.
E então entram os políticos, personagens tradicionalmente atentos às emoções populares e pouco dispostos a desperdiçar oportunidades simbólicas. A cada Copa, reaparece o esforço cuidadosamente calculado de vestir a camisa da seleção, posar de torcedor apaixonado e, se possível, capturar um pouco da popularidade emocional produzida pelo futebol. Afinal, poucas imagens parecem tão sedutoras quanto a proximidade com algo capaz de mobilizar afetivamente milhões de brasileiros. Em tempos de hiperexposição pública, torcer também se transforma, não raramente, em estratégia.
As redes sociais, naturalmente, potencializaram tudo isso a níveis quase folclóricos. Nunca houve tantos comentaristas esportivos por centímetro digital. Em poucas horas, timelines se transformam em verdadeiros centros de análise tática onde qualquer substituição vira debate nacional e qualquer derrota assume contornos de crise institucional. O brasileiro talvez nunca seja tão intensamente especialista quanto durante uma Copa, fenômeno antropologicamente fascinante e emocionalmente barulhento.
Mas talvez o aspecto mais bonito desse evento continue sendo sua capacidade de suspender, ainda que temporariamente, certos pesos da realidade. Durante noventa minutos, muita gente esquece preocupações, interrompe cansaços e reencontra algum senso de pertencimento coletivo raramente experimentado no cotidiano. Há famílias reunidas no sofá, amigos que reaparecem, vizinhos que finalmente se cumprimentam e crianças descobrindo, encantadas, que adultos também podem sofrer, comemorar e acreditar com a intensidade emocional de quem ainda não desistiu completamente da esperança.
Porque talvez seja justamente isso que a Copa revele sobre nós. Não apenas nossa paixão pelo futebol, mas nossa insistência em acreditar. Acreditamos mesmo quando a fase não inspira confiança, quando o retrospecto recomenda cautela e quando a razão sugere moderação emocional. Talvez porque torcer seja uma das formas mais sinceras de esperança coletiva ainda disponíveis.
A cada quatro anos, o Brasil volta a acreditar. Talvez não apenas no futebol, mas naquela parte de si mesmo que ainda resiste ao cinismo e insiste, teimosamente, em imaginar que desta vez pode ser diferente.