Vote em quem é de Piracicaba. Mas isso vale para quem?
Piracicaba descobriu uma coisa que a política costuma descobrir apenas quando percebe que pode perder alguma coisa: representação importa. Daí nasceu a campanha “Vote em quem é de Piracicaba”, defendida por entidades empresariais e da sociedade civil como uma tentativa de chamar atenção para um problema que a cidade conhece há anos: quando os votos são pulverizados entre candidatos de fora, Piracicaba pode até ajudar a eleger muita gente. O que nem sempre consegue é eleger alguém que, depois da posse, tenha a cidade como prioridade.
A ideia parece tão óbvia que chega a produzir uma pergunta incômoda: se é tão importante ter representação local, por que a própria classe política da cidade tantas vezes parece mais interessada em construir alianças eleitorais para fora do que em fortalecer uma bancada daqui?
É aí que começa a parte divertida, embora o assunto seja sério.
Na campanha, Piracicaba vira patrimônio político. Todo mundo é daqui, conhece alguém daqui, tem história daqui, gosta daqui, frequenta aqui, tem um amigo daqui. A cidade aparece em discursos, fotografias, vídeos e agendas. Mas basta chegar a hora de organizar as alianças que a geografia eleitoral ganha uma curiosa elasticidade. O candidato local pode descobrir que seu melhor parceiro está em outra cidade. E o candidato de outra cidade, convenientemente, também pode descobrir que Piracicaba é estratégica.
Não há nada de ilegal nisso. Política é articulação, alianças são legítimas e cada partido organiza suas estratégias como considera melhor. O problema é outro. Se todos concordam que Piracicaba precisa de representação, por que essa união desaparece justamente quando poderia produzir força política local?
Uma “dobradinha” entre candidatos locais, por exemplo, não precisa significar uniformidade ideológica, submissão partidária ou casamento político. Pode significar apenas uma compreensão elementar de território: deputado estadual e deputado federal da mesma região podem ampliar a capacidade de interlocução de uma cidade em São Paulo e em Brasília. Um atua em uma esfera, outro em outra. Ambos podem disputar votos e defender ideias diferentes. Mas podem reconhecer que existe uma cidade que os colocou em campo.
Curiosamente, na iniciativa privada, esse raciocínio seria chamado de estratégia. Na política, às vezes parece ser tratado como ingenuidade.
Empresários entendem perfeitamente o valor de unir forças quando existe um interesse comum. Empresas concorrentes conseguem construir associações, sindicatos patronais, câmaras setoriais e agendas conjuntas quando percebem que determinadas questões são maiores que seus próprios negócios. Não precisam pensar igual em tudo. Precisam apenas entender que, em determinadas mesas, chegar separado significa falar baixo.
Piracicaba já demonstrou que possui força econômica, institucional e social para defender seus interesses. O problema é transformar essa força em representação política permanente. E representação não se constrói apenas com discurso de campanha. Constrói-se com gente disposta a permanecer junto quando a eleição acaba.
Existe ainda uma ironia particularmente desconfortável: enquanto entidades se mobilizam para dizer ao eleitor que é importante escolher representantes ligados à cidade, políticos locais podem estar simultaneamente buscando alianças que privilegiam candidaturas de fora. É como vender a ideia de fortalecer o comércio local enquanto se faz a lista de compras inteira no shopping da cidade vizinha.
A contradição merece ser discutida.
Não porque candidatos locais devam obrigatoriamente apoiar uns aos outros. Não devem. Política não é condomínio, e ninguém precisa abrir mão de suas convicções para construir uma fotografia coletiva. Mas, se a ausência de representação própria é reconhecida como um problema, seria razoável perguntar se os próprios políticos estão dispostos a agir de acordo com esse diagnóstico.
Ou a campanha vale apenas para o eleitor? Essa talvez seja a pergunta que mais incomode.
Porque é muito confortável dizer ao cidadão que ele deve valorizar a representação local enquanto cada grupo político calcula individualmente quantos votos pode conquistar para sua própria legenda, seu próprio candidato e seu próprio projeto. O eleitor é convidado a pensar na cidade. A política, às vezes, continua pensando na eleição.
E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
Uma cidade forte politicamente não é aquela em que todos os candidatos fazem campanha juntos, concordam com tudo e distribuem abraços em eventos. É aquela em que seus representantes compreendem que, depois de eleitos, terão uma responsabilidade territorial que ultrapassa partido, grupo e conveniência eleitoral.
Piracicaba não precisa de unanimidade. Precisa de maturidade política e entender que deputado estadual e deputado federal não são troféus individuais. São instrumentos de representação. Precisam estar presentes quando se discute orçamento, infraestrutura, saúde, segurança, educação, desenvolvimento econômico e recursos que podem mudar a realidade de uma região.
E precisam, sobretudo, lembrar quem os colocou lá.
Porque existe uma diferença entre ter um político de Piracicaba eleito e ter Piracicaba representada. A primeira situação cabe perfeitamente em uma fotografia. A segunda exige presença, cobrança, articulação e fidelidade ao território.
No fim, talvez a campanha precise de uma pequena atualização: não basta perguntar “Vote em quem é de Piracicaba”.; é preciso perguntar também aos políticos: vocês estão dispostos a agir como se acreditassem nisso?
Porque pedir que o eleitor valorize a cidade é fácil., difícil é colocar a cidade acima da conveniência eleitoral quando chega a hora de escolher com quem caminhar.
E política, como negócios, costuma revelar suas verdadeiras prioridades não no discurso. Revela na hora de fechar o acordo.