A eleição em que dinheiro também pede voto
Existe uma velha tradição brasileira que ressurge com impressionante pontualidade a cada eleição: a ideia de que dinheiro compra quase tudo. Não necessariamente o voto, porque isso seria crime e ninguém em sã consciência admitiria tamanha ingenuidade, mas a visibilidade, a estrutura, a influência, o espaço, a lembrança e, sobretudo, a capacidade de fazer determinado candidato parecer muito mais importante do que realmente é. Em 2026, enquanto o eleitor é convidado a escolher seus representantes com consciência, algumas campanhas parecem dispostas a lembrar que, na política, largar na frente continua sendo uma vantagem considerável.
O abuso de poder econômico não precisa necessariamente aparecer na forma grosseira de uma mala de dinheiro ou de uma compra explícita de votos. A política moderna aprendeu maneiras muito mais sofisticadas de transformar recursos financeiros em vantagem eleitoral. Uma campanha pode construir presença ostensiva, contratar estruturas profissionais de comunicação, multiplicar eventos, ampliar exposição digital e produzir uma sensação de popularidade que, quando observada de perto, talvez seja muito mais resultado de investimento do que de adesão espontânea. A legislação eleitoral estabelece limites justamente porque democracia pressupõe alguma igualdade de condições na disputa, e o próprio Tribunal Superior Eleitoral alerta que o excesso de gastos pode caracterizar abuso do poder econômico.
É importante fazer uma distinção. Dinheiro é necessário para fazer campanha. Comunicação custa, deslocamento custa, equipe custa, material custa e tecnologia custa. Uma campanha profissional não é, por definição, uma campanha irregular. O problema começa quando a capacidade financeira deixa de servir à apresentação de ideias e passa a fabricar artificialmente uma candidatura. Quando o dinheiro deixa de ser instrumento e se transforma em protagonista, o eleitor deixa de escolher entre projetos e começa a escolher entre máquinas eleitorais.
E as máquinas são cada vez mais sofisticadas. Já não basta o tradicional santinho, o carro de som e a caminhada pelo bairro. Agora existem equipes de conteúdo, publicidade digital, monitoramento de redes, produção audiovisual, influenciadores, eventos cuidadosamente planejados e uma engenharia de comunicação capaz de transformar uma candidatura desconhecida em assunto recorrente em poucos dias. O eleitor abre o celular e encontra o candidato. Liga a televisão e encontra o candidato. Vai a um evento e encontra o candidato. Abre uma rede social e encontra novamente o candidato. Depois de algumas semanas, pode concluir que está diante de um fenômeno político. Talvez esteja apenas diante de uma campanha muito bem financiada.
É aí que a questão deixa de ser meramente eleitoral e passa a ser econômica. Porque campanhas caras podem produzir uma desigualdade que não aparece imediatamente nas urnas, mas interfere na própria capacidade de o eleitor conhecer alternativas. O candidato que possui mais recursos compra mais presença. Quem compra mais presença constrói mais reconhecimento. Quem constrói mais reconhecimento parte com vantagem. E assim se cria um círculo vicioso em que notoriedade gera votos, votos geram poder e poder, muitas vezes, facilita a construção da próxima campanha.
O eleitor deveria desconfiar especialmente daquilo que parece espontâneo demais. A política contemporânea descobriu que a propaganda mais eficiente é aquela que se apresenta como não sendo propaganda. O candidato aparece em vídeos descontraídos, ao lado de personalidades, em eventos populares, em conversas aparentemente casuais, cercado de pessoas conhecidas e inserido em uma narrativa cuidadosamente construída para transmitir proximidade. Não é necessariamente ilegal. Mas deveria ser objeto de atenção.
Também seria ingênuo imaginar que o abuso de poder econômico acontece apenas quando alguém ultrapassa determinado limite financeiro. O problema mais profundo está na mentalidade de que uma eleição pode ser vencida pela quantidade de recursos despejados sobre ela. O dinheiro pode contratar estrutura, mas não deveria comprar legitimidade. Pode ampliar uma mensagem, mas não deveria substituir uma trajetória. Pode levar um candidato a todos os cantos, mas não pode fabricar experiência onde ela não existe.
Em 2026, o próprio ambiente eleitoral mostra como essa disputa ficou mais complexa. A propaganda eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto, e as regras passaram a disciplinar com maior atenção a comunicação digital, inclusive questões relacionadas à inteligência artificial e à desinformação. Isso significa que o velho dinheiro do caixa de campanha encontrou um território novo: o da economia da atenção. Hoje, não basta saber quanto uma campanha gastou. É preciso compreender onde, como e para qual finalidade esse dinheiro está sendo utilizado.
Como empresário, aprendi que dinheiro mal empregado não deixa de ser desperdício apenas porque foi gasto com uma boa apresentação. Uma empresa pode colocar uma fortuna em publicidade e continuar oferecendo um produto ruim. Pode contratar uma agência brilhante e continuar sem capacidade de entrega. Pode construir uma marca extraordinária e não possuir um negócio sustentável. Na política, a lógica não deveria ser diferente. Uma campanha milionária não transforma automaticamente um candidato em bom parlamentar, assim como uma propaganda bonita não transforma uma empresa ruim em boa.
O eleitor precisa fazer aquilo que qualquer empresário responsável faria antes de colocar dinheiro em um negócio: analisar o histórico. Quem é essa pessoa? O que fez antes de pedir meu voto? Quais ideias defendeu quando não estava em campanha? De onde vieram os recursos que sustentam sua estrutura eleitoral? Quem são seus aliados? Que compromissos assumiu? O que efetivamente entregou?
Talvez essa seja a melhor maneira de enfrentar o poder econômico nas eleições. Não apenas com fiscalização, embora ela seja indispensável, mas com um eleitor menos impressionável. Porque existe uma verdade desconfortável para qualquer candidato: dinheiro pode comprar exposição, mas não deveria comprar confiança.
No final, a democracia não precisa de campanhas pobres. Precisa de campanhas honestas. Não precisa de candidatos invisíveis. Precisa de candidatos capazes de explicar por que merecem ser vistos. E não precisa de uma disputa em que vença quem tiver a maior máquina, mas de uma eleição em que o dinheiro seja apenas ferramenta e jamais substituto de caráter, competência e trabalho.
Porque, quando o poder econômico começa a escolher antes do eleitor, a eleição continua acontecendo. As urnas continuam funcionando. Os votos continuam sendo contados. Mas alguma coisa essencial na democracia já começou a custar caro demais.