Emergência de papel, prejuízo de verdade
Há emergências que chegam com sirenes, hospitais lotados ou cidades debaixo d’água. A que os Estados Unidos mantêm contra o Brasil chega pelo diário oficial, carimbada e com data para renovação. Não há tropas brasileiras na fronteira americana, nem ameaça militar, sanitária ou terrorista. Há uma disputa política transformada em instrumento econômico. Quando a política externa abandona a medida, a conta raramente fica nos gabinetes.
No dia 29 de julho, o governo de Donald Trump prorrogou até 30 de julho de 2027 a emergência criada um ano antes contra o Brasil. A Ordem Executiva 14323 classificou políticas e ações do governo brasileiro como ameaça “incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos. A justificativa voltou a citar decisões do Supremo Tribunal Federal, liberdade de expressão e o tratamento ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a seus apoiadores.
É preciso separar os fatos da espuma política. A prorrogação não recriou a tarifa adicional de 40% imposta em 2025. Em fevereiro deste ano, outra ordem executiva encerrou as tarifas baseadas na legislação de emergência, inclusive as dirigidas ao Brasil, embora tenha preservado a declaração e outras medidas. Portanto, não se deve anunciar um novo tarifaço onde ele não existe. Mas também seria ingênuo tratar a renovação como gesto inofensivo: ela conserva um fundamento político e jurídico hostil.
Os números mostram por que essa hostilidade importa. Segundo o Census Bureau, entre janeiro e maio de 2026 os Estados Unidos importaram US$ 13,95 bilhões em produtos brasileiros, contra US$ 18,39 bilhões no mesmo período de 2025, uma queda de aproximadamente 24%. Já as exportações americanas para o Brasil permaneceram estáveis, próximas de US$ 21,7 bilhões. Esses dados, sozinhos, não provam a causa da queda, mas revelam a assimetria de um período em que a tensão comercial cresceu.
Para uma cidade industrial como Piracicaba, isso não é teatro distante. Incerteza comercial entra no preço, adia investimentos, reduz pedidos e alcança o emprego. O trabalhador não recebe salário em conceitos diplomáticos, nem o pequeno empresário paga fornecedores com discursos sobre soberania. A política internacional, aliás, descobriu a emergência com renovação programada, quase um serviço por assinatura; a diferença é que a fatura chega às empresas e às famílias que jamais assinaram o contrato.
O Brasil precisa responder com firmeza, mas firmeza não é gritaria. É diplomacia profissional, defesa jurídica nos organismos internacionais, diálogo com empresas e diversificação de mercados. Exige fazer a lição de casa: reduzir o custo Brasil, melhorar infraestrutura, ampliar financiamento à exportação e fortalecer a competitividade industrial. Trump não deve usar o peso econômico americano para pressionar instituições brasileiras; o governo brasileiro, por sua vez, não pode trocar estratégia por palanque nem transformar cada conflito em combustível doméstico.
Países maduros não escolhem entre submissão e bravata. Escolhem direção, constroem alianças e protegem quem produz. A crise deve nos ensinar a depender menos de improvisos, abrir novos mercados e recuperar uma relação comercial sem negociar nossa soberania. O decreto americano pode permanecer arquivado entre assinaturas e justificativas discutíveis. Mas uma encomenda cancelada, um investimento suspenso e um emprego perdido não são abstrações. É por isso que esta é uma emergência de papel, mas o prejuízo é de verdade.