Opinião

O adoecimento silencioso por trás das metas bancárias

Ansiedade, pânico e esgotamento se tornaram rotina nas agências. Tratar disso é urgente, e é também tarefa da legislação.

Existe um tipo de sofrimento que não aparece no balanço dos bancos, mas está presente em quase toda agência do país: o adoecimento silencioso de quem trabalha sob pressão constante. Ansiedade, síndrome do pânico, depressão, esgotamento. Nos corredores, todo mundo conhece um colega que precisou se afastar. Fora deles, quase ninguém fala sobre isso.

Trabalho em banco há quase 20 anos e conheço bem a engrenagem. A cobrança por resultados, quando feita com respeito, faz parte de qualquer profissão. O problema começa quando a meta deixa de ser um objetivo e vira uma ameaça, quando o “bom dia” da manhã é substituído pela pergunta sobre quanto falta para bater o número, e quando não bater passa a significar humilhação diante da equipe. Isso não é gestão. É assédio moral disfarçado de produtividade.

Os números ajudam a entender o cenário. Segundo dados de movimentação do emprego do Ministério do Trabalho, o setor bancário fechou dezenas de milhares de postos desde 2020. Menos gente para o mesmo volume de trabalho significa mais pressão sobre quem fica. A equipe encolhe, as metas não; o resultado é uma conta que sobra sempre no corpo e na mente do trabalhador. E há um recorte que não pode ser ignorado: as mulheres, que são metade da categoria, têm sido as mais atingidas pelas demissões, acumulando jornada, cobrança e insegurança.

O adoecimento mental relacionado ao trabalho ainda enfrenta um obstáculo cruel: o silêncio. Muitos evitam procurar ajuda por medo de parecerem frágeis ou de sofrerem retaliação. Outros lutam para ter reconhecido o nexo entre a doença e o trabalho, como se o sofrimento precisasse de comprovação para existir. Enquanto isso, o problema é empurrado para a esfera individual, “é só você se organizar melhor”, dizem, quando, na verdade, é estrutural.

Precisamos mudar essa lógica, e parte da mudança passa pela legislação. Defendo o reconhecimento pleno do adoecimento mental como questão ocupacional no setor financeiro, com garantias para quem precisa se afastar e retornar sem perder direitos. Defendo regras claras contra o assédio moral, com canais de denúncia seguros e responsabilização de quem transforma liderança em perseguição. E defendo limites ao estabelecimento de metas, para que elas deixem de ser instrumento de tortura psicológica e voltem a ser o que deveriam, um horizonte possível, e não uma corda no pescoço.

Há também o direito ao descanso, que a tecnologia corroeu. O grupo de mensagens do trabalho que apita às dez da noite, a cobrança no fim de semana, a sensação de nunca desligar. O direito à desconexão precisa sair do discurso e virar norma. Fora do horário, o trabalhador tem direito a viver e viver bem também é uma questão de saúde.

Falo disso com conhecimento de causa, mas, sobretudo, com respeito por cada colega que já chorou no banheiro da agência antes de voltar ao atendimento com um sorriso profissional no rosto. Essa dor tem nome, tem causa e tem solução. O que falta é vontade política para encará-la.

Como deputado federal, quero que a saúde do trabalhador bancário deixe de ser tema de bastidor e se torne prioridade de agenda. Nenhuma meta, nenhum lucro, nenhum resultado trimestral vale mais do que a integridade de quem faz o banco funcionar. Um país que se diz moderno não pode aceitar que o preço do sucesso de suas maiores instituições seja o adoecimento de sua própria gente.