O espetáculo dos impostos e a temporada das promessas
O brasileiro talvez seja um dos poucos cidadãos do mundo capaz de pagar impostos de país desenvolvido enquanto convive com serviços públicos que frequentemente lembram economias muito menos estruturadas. A conta chega todos os dias, embutida no combustível, na energia elétrica, nos alimentos, nos serviços, nos produtos de consumo e em praticamente cada etapa da vida econômica. O problema nunca foi a ausência de arrecadação. O verdadeiro debate está na qualidade da aplicação dos recursos.
Sempre que surgem discussões sobre aumento de tributos, criação de taxas ou ampliação da arrecadação, o discurso oficial costuma ser o mesmo: o Estado precisa de mais recursos para atender melhor a população. A teoria parece razoável. Na prática, porém, o cidadão observa uma realidade diferente. Estradas permanecem deterioradas, unidades de saúde enfrentam dificuldades operacionais, obras se arrastam por anos e serviços essenciais frequentemente funcionam abaixo das expectativas de quem os financia.
A questão que raramente ocupa o centro do debate é desconfortável. Antes de discutir quanto arrecadar, talvez fosse mais sensato discutir como gastar. Afinal, nenhuma família resolve seus problemas financeiros simplesmente aumentando despesas. Nenhuma empresa se torna eficiente ignorando desperdícios. Nenhum negócio prospera tratando recursos como se fossem infinitos. Curiosamente, aquilo que é considerado bom senso na iniciativa privada muitas vezes parece dispensável quando o assunto é gestão pública.
Existe uma tendência recorrente na política brasileira de tratar arrecadação como sinônimo de solução. Como se a simples entrada de mais dinheiro nos cofres públicos fosse suficiente para corrigir problemas estruturais que, na maioria das vezes, estão relacionados à gestão, à priorização e à eficiência. O resultado é conhecido. O contribuinte paga mais, mas raramente percebe melhorias proporcionais àquilo que desembolsa.
E então chega o período eleitoral. É nesse momento que ocorre uma transformação quase mágica na administração pública. Obras esquecidas durante anos reaparecem como prioridade absoluta. Máquinas começam a trabalhar em ritmo acelerado. Programas são anunciados com entusiasmo renovado. Placas surgem em locais onde antes havia apenas abandono. Autoridades multiplicam visitas, inaugurações, entrevistas e eventos públicos. De repente, a urgência administrativa parece despertar de um longo período de hibernação.
O fenômeno não é exclusividade de um partido, de uma ideologia ou de uma região. Trata-se de uma prática tão antiga quanto a própria política. Governos de diferentes matizes aprenderam que a memória do eleitor costuma ser mais curta do que o mandato dos governantes. Assim, concentrar entregas, anúncios e ações nos meses que antecedem as eleições tornou-se uma estratégia tão conhecida quanto eficaz.
Naturalmente, governar exige planejamento contínuo, e obras públicas possuem cronogramas complexos. Mas a coincidência estatística de tantas inaugurações, anúncios e promessas ocorrerem justamente em anos eleitorais desafia qualquer explicação puramente técnica. É como se determinadas prioridades administrativas descobrissem o calendário das urnas.
Mais interessante ainda é observar a criatividade que emerge nesses períodos. Programas ganham novos nomes. Projetos antigos recebem novas embalagens. Ações rotineiras passam a ser apresentadas como conquistas extraordinárias. O marketing institucional assume protagonismo e a comunicação frequentemente passa a ocupar mais espaço do que a própria gestão.
Enquanto isso, permanece uma pergunta simples e quase revolucionária: e se os recursos arrecadados fossem administrados com o mesmo rigor que se exige de um empreendedor, de um comerciante ou de uma família comum?
Talvez tivéssemos menos inaugurações de última hora e mais planejamento de longo prazo. Menos anúncios e mais resultados. Menos propaganda institucional e mais eficiência administrativa. Menos preocupação com o próximo ciclo eleitoral e mais compromisso com a próxima geração.
A maturidade de uma democracia não se mede apenas pela realização periódica de eleições. Mede-se também pela capacidade de seus cidadãos distinguirem gestão de marketing, planejamento de improvisação e investimento público de espetáculo político.
Porque impostos sempre serão necessários. O que não deveria ser necessário é transformar cada eleição em uma temporada de convencimento para explicar ao contribuinte por que ele ainda não recebeu, em serviços, aquilo que já pagou há tanto tempo em tributos.