O tarifaço e o espelho brasileiro
Existe uma distância confortável entre Washington e Piracicaba. No mapa, são milhares de quilômetros; na economia, essa distância praticamente deixou de existir. Uma decisão tomada na Casa Branca pode chegar a uma indústria piracicabana, alterar o preço de uma máquina, comprometer a competitividade de um contrato, adiar um investimento e produzir consequências na economia real. Por isso, o novo tarifaço americano não pode ser tratado como mais um capítulo de uma disputa comercial entre grandes potências. Para Piracicaba, cidade construída sobre indústria, tecnologia, máquinas, produção e comércio exterior, o assunto tem endereço, tem empresa, tem trabalhador e tem impacto. Um levantamento baseado em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e da Amcham Brasil estima em até US$ 1,19 bilhão o valor das exportações de Piracicaba potencialmente expostas às novas tarifas americanas. Isso não significa que a cidade perderá esse valor, mas revela a dimensão do que está em jogo.
Trump, gostemos ou não, entendeu algo que o Brasil frequentemente demora a admitir: comércio internacional também é política de poder. Os Estados Unidos utilizam o tamanho de seu mercado para defender seus interesses econômicos e estratégicos. Pode-se discordar da estratégia, mas não se pode fingir que ela não existe. O mundo real não funciona pela lógica de quem está certo ou errado; funciona pela capacidade de cada país defender seus interesses. E o erro brasileiro seria responder a essa realidade como se estivéssemos diante de uma simples discussão moral.
O problema é que, diante de qualquer crise, o Brasil parece mais interessado em encontrar culpados do que em encontrar soluções. Trump vira vilão para uns, Lula vira culpado para outros, redes sociais inflamam e, enquanto isso, existe uma indústria tentando preservar contratos, um fornecedor tentando manter pedidos e um trabalhador tentando entender o que acontecerá com seu emprego. A indústria não paga salários com ideologia. Uma máquina não embarca para os Estados Unidos carregando uma bandeira partidária. Empresas precisam de mercado, trabalhadores precisam de emprego e cidades precisam de atividade econômica.
Piracicaba deveria olhar para esse cenário com especial atenção. Nossa força industrial é justamente aquilo que nos coloca em posição de destaque e, ao mesmo tempo, nos deixa expostos às mudanças do comércio internacional. Existe aqui uma cadeia produtiva sofisticada, conhecimento acumulado, empresas competitivas e mão de obra qualificada. Quando uma barreira comercial atinge esse ecossistema, o efeito potencial não fica restrito ao exportador. Uma indústria pode rever produção, um fornecedor pode perder escala, investimentos podem ser adiados e contratações podem ser postergadas. Não é preciso anunciar uma catástrofe para reconhecer um risco.
E aqui está a parte que talvez mais incomode: o tarifaço de Trump também expõe problemas que não foram criados por Trump. O presidente americano pode criar uma barreira comercial, mas não é responsável pelo custo Brasil. Não criou nossa burocracia, nossa complexidade tributária, nossos gargalos de infraestrutura ou o custo do crédito para quem produz. O que a tarifa faz é acrescentar uma dificuldade externa a uma equação que internamente já é suficientemente complicada. Uma indústria brasileira que precisa competir com empresas de países mais previsíveis recebe agora mais uma variável para administrar.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas “o que Trump está fazendo?”, mas também: o que estamos fazendo para que nossas empresas tenham força suficiente para sobreviver quando alguém como Trump decide mudar as regras?
O governo brasileiro precisa negociar, defender os interesses nacionais e buscar alternativas para os setores atingidos. Mas diplomacia não substitui competitividade. Um país verdadeiramente soberano não é aquele que faz o discurso mais duro contra uma potência estrangeira. É aquele que possui alternativas econômicas suficientes para que nenhuma potência consiga determinar sozinha seu destino.
É aí que a discussão deixa de ser apenas sobre Trump e passa a ser sobre Brasília, governos estaduais, municípios e também sobre os empresários. É fácil defender a indústria em palanque. Mais difícil é reduzir a burocracia, melhorar infraestrutura, ampliar produtividade, garantir segurança jurídica, formar mão de obra e criar condições para investimentos. O Brasil tem uma longa tradição de celebrar o empreendedor quando ele vence e criar obstáculos enquanto ele tenta chegar lá.
O tarifaço deveria servir, portanto, para uma conversa mais adulta sobre desenvolvimento. Precisamos diversificar mercados, estimular inovação, aumentar produtividade e criar condições para que empresas brasileiras tenham capacidade de competir globalmente. Piracicaba não pode ser apenas o lugar onde produtos são fabricados e enviados para o exterior. Precisa ser cada vez mais um ambiente de tecnologia, investimento, qualificação e expansão empresarial.
Trump não terá piedade da nossa economia. E não deveria ter. Nenhum presidente americano foi eleito para defender o emprego brasileiro. A responsabilidade de construir uma economia capaz de negociar de igual para igual é nossa. A responsabilidade de defender os interesses brasileiros nas negociações também é nossa. E a responsabilidade de não transformar cada crise internacional em uma guerra doméstica entre torcidas políticas deveria ser igualmente nossa.
O tarifaço, portanto, é mais do que uma tarifa. É um teste para a diplomacia brasileira, para a capacidade de reação do governo, para a maturidade da classe política e para a capacidade do setor produtivo de se adaptar. Piracicaba está exposta porque é industrial, produz, exporta e construiu relevância. Isso não deveria ser motivo de medo, mas de responsabilidade.
Washington pode mudar uma tarifa em uma assinatura. Brasília pode reagir com uma negociação ou um discurso. Mas nenhuma dessas coisas constrói, sozinha, a competitividade de que Piracicaba precisa.
Essa construção acontece aqui. Piracicaba não precisa escolher entre Trump e Lula. Precisa escolher entre dependência e estratégia.
Porque o problema do tarifaço não é apenas quanto podemos deixar de vender.É descobrir se continuaremos permitindo que decisões tomadas longe daqui tenham poder demais sobre aquilo que deveríamos ter competência para decidir aqui.