Opinião

Quando o voto vira publicidade

Durante muito tempo, o político precisava convencer o eleitor de que era capaz de representá-lo. Cabia a ele apresentar propostas, mostrar trajetória, participar de debates e, principalmente, explicar o que pretendia fazer com o mandato. Hoje, existe um atalho muito mais confortável: convencer alguém que já conquistou a atenção de milhares ou milhões de pessoas.

 A política descobriu os influenciadores e, com eles, uma nova forma de chegar ao eleitor sem necessariamente precisar conquistar sua confiança diretamente.

Não há nada de errado em uma pessoa conhecida declarar sua preferência política. Influenciadores são cidadãos e têm o direito de manifestar suas opiniões. O problema começa quando influência passa a funcionar como substituto da informação. Quando alguém escolhe um candidato simplesmente porque uma personalidade que acompanha diariamente afirmou que ele é “bom”, “de confiança” ou “a melhor opção”, talvez esteja transferindo para outra pessoa uma decisão que deveria ser essencialmente sua.

E Piracicaba oferece um capítulo particularmente curioso dessa novela eleitoral. Por aqui, não é exatamente novidade observar influenciadores que, em determinado momento, aparecem entusiasmados ao lado de um candidato e, algum tempo depois, surgem igualmente entusiasmados ao lado de outro. Mudar de opinião é legítimo. O eleitorado não exige fidelidade eterna a candidato algum. Mas quando a mudança de discurso coincide convenientemente com uma nova oportunidade financeira, a pergunta deixa de ser política e passa a ser ética: mudou a convicção ou mudou o contratante?

É uma pergunta incômoda, mas necessária. Porque, se ontem determinado político era apresentado como excepcional e hoje outro ocupa o mesmo lugar de “melhor escolha”, sem que tenha ocorrido qualquer fato novo capaz de justificar a mudança, talvez o público tenha direito de desconfiar. E quando a convicção política parece ter tabela de preços, o problema já não está apenas no candidato promovido. Está na credibilidade de quem o promove.

A diferença parece pequena, mas não é. Escolher um restaurante por indicação de um influenciador é uma coisa. Escolher quem vai votar leis, fiscalizar governos, discutir orçamento e representar milhares ou milhões de pessoas é outra. Uma escolha equivocada de consumo pode custar dinheiro. Uma escolha política equivocada pode custar quatro anos de decisões que afetarão uma cidade, um Estado ou o país.

A política percebeu que a lógica das redes sociais é extremamente conveniente. O eleitor não precisa mais ser convencido em um palanque. Basta aparecer no ambiente onde ele já está. O candidato participa de um vídeo descontraído, surge ao lado de uma personalidade conhecida, faz uma brincadeira, recebe elogios e, de repente, parece íntimo de um público que nunca teve qualquer contato com sua trajetória. A intimidade digital produz uma curiosa sensação de proximidade. O candidato parece conhecido porque aparece na tela todos os dias, ainda que o eleitor não saiba quase nada sobre aquilo que ele efetivamente fez.

É aí que a política começa a se aproximar perigosamente da publicidade. O candidato vira produto, o influenciador vira canal, a audiência vira mercado e o voto corre o risco de ser tratado como conversão.

O problema não está apenas no candidato que procura um influenciador. Está também no influenciador que aceita emprestar sua credibilidade sem conhecer suficientemente aquilo que está recomendando. Influência não deveria significar apenas capacidade de alcançar pessoas. Deveria significar responsabilidade proporcional ao alcance. Quem construiu uma comunidade durante anos possui algo que dinheiro nenhum compra facilmente: confiança. E confiança, uma vez colocada à venda, pode até gerar receita no curto prazo, mas cobra uma conta muito mais cara no longo prazo.

Como empresário, aprendi que reputação é patrimônio. Uma empresa pode levar anos para construir credibilidade e perdê-la rapidamente. Nas redes sociais, deveria valer a mesma regra. Se uma pessoa recomenda hoje um candidato como indispensável e amanhã recomenda outro com o mesmo entusiasmo, o mínimo que se pode esperar é que explique ao público o que mudou. Porque, se a resposta for simplesmente “o contrato mudou”, talvez seja mais honesto chamar aquilo de publicidade e colocar o devido preço na etiqueta.

O eleitor também precisa fazer sua parte. O fato de alguém que admiramos apoiar determinado candidato não deveria encerrar nossa investigação. Deveria começar uma pergunta. Quem é essa pessoa? O que fez antes da eleição? O que defendeu? Como votou? Qual é sua trajetória? Quais compromissos assumiu? O que pretende fazer com o mandato?

E há outra pergunta que talvez seja ainda mais importante: por que alguém está me dizendo para votar nele?

Não é cinismo, é maturidade. A democracia não pode ser terceirizada para quem tem mais seguidores. Muito menos para quem consegue transformar seguidores em moeda eleitoral.

Existe uma diferença fundamental entre influência e liderança. Influência pode nascer da popularidade. Liderança precisa sobreviver à popularidade. Um influenciador pode alcançar milhares de pessoas em poucas horas. Um parlamentar precisará passar quatro anos tomando decisões que não cabem em um vídeo de trinta segundos.

Influenciadores podem fortalecer a democracia quando ampliam o debate, questionam candidatos e estimulam seus seguidores a buscar informação. Podem também empobrecê-la quando transformam uma eleição em mais uma oportunidade de publicidade.

No comércio, uma publicidade pode vender um produto. Se o produto for ruim, o consumidor devolve, troca ou simplesmente não compra novamente.

Na política, o produto pode ganhar um mandato. E quem paga a conta não é o influenciador. Somos nós.