Opinião

Setembro Amarelo: antes da meta, existe uma pessoa

Setembro chega vestido de amarelo e, com ele, multiplicam-se as campanhas, os cartazes, as mensagens sobre acolhimento e os lembretes de que precisamos falar sobre saúde mental. Tudo isso é necessário. Mas, para quem passou boa parte da vida dentro de uma agência bancária, existe uma pergunta que não pode ser deixada de lado: de que adianta pedir que alguém fale quando o ambiente em que essa pessoa trabalha, muitas vezes, ensina justamente o contrário?

Quem trabalha em banco conhece bem a linguagem dos números. Meta, resultado, produtividade, carteira, desempenho, eficiência. Tudo precisa ser medido, acompanhado e entregue. O problema começa quando essa lógica, necessária para o funcionamento de uma instituição, passa a ocupar também o espaço que deveria pertencer à pessoa. Porque funcionário não é indicador. Não é número de matrícula. Não é percentual de atingimento. Antes de qualquer resultado, existe alguém que tem família, contas, preocupações, sonhos e, como qualquer ser humano, dias em que simplesmente não está bem.

No Banco do Brasil, essa discussão ganha uma dimensão ainda maior. Estamos falando de uma instituição com mais de 80 mil funcionários, pessoas que atravessaram transformações profundas no sistema bancário e que, nos últimos anos, precisaram acompanhar digitalização, mudanças de estruturas, novas formas de atendimento, cobrança por resultados e uma permanente adaptação a modelos de trabalho que nem sempre foram acompanhados pelo mesmo cuidado com quem está na outra ponta.

Eu conheço essa realidade porque vivi esse ambiente. Entrei no Banco do Brasil em 2005 e sei que existe uma diferença enorme entre falar sobre pressão e senti-la na rotina. Sei o que significa chegar ao trabalho carregando problemas pessoais e, ainda assim, precisar sorrir para o cliente. Sei o que significa terminar um dia exausto e, no dia seguinte, vestir novamente a camisa como se nada tivesse acontecido. E sei também que, muitas vezes, o funcionário mais elogiado é justamente aquele que aprendeu a esconder melhor o próprio cansaço.

Precisamos tomar cuidado para não transformar o Setembro Amarelo em mais uma meta a cumprir. Saúde mental não se resolve com um cartaz na parede, uma palestra por ano ou uma mensagem bonita na intranet. A própria Fundacentro alerta que aplicativos, benefícios e ações pontuais não substituem boas condições estruturais de trabalho, respeito, participação, escuta e relações profissionais saudáveis.

Cuidar de quem trabalha no Banco do Brasil significa também discutir aquilo que produz sofrimento. Significa falar sobre assédio, sobre excesso de pressão, sobre insegurança, sobre reconhecimento, sobre condições de trabalho e sobre o direito de pedir ajuda sem ser tratado como alguém menos preparado ou menos comprometido. Significa compreender que produtividade e saúde não são adversárias. Ao contrário: ninguém entrega o melhor de si quando está sendo consumido por dentro.

Talvez a principal mensagem deste Setembro Amarelo seja justamente esta: não precisamos esperar alguém chegar ao limite para perguntar se está tudo bem.

Quem trabalha precisa ser ouvido antes de adoecer. Quem lidera precisa aprender a perceber antes que o silêncio vire afastamento. E quem formula políticas públicas precisa entender que saúde mental também é uma questão de trabalho, de dignidade e de responsabilidade institucional.

Durante duas décadas no Banco do Brasil, aprendi que uma instituição é feita de muito mais do que balanços, agências e resultados. Ela é feita de pessoas. E nenhuma instituição pode ser verdadeiramente forte se aqueles que a constroem todos os dias estão sendo obrigados a esconder o próprio sofrimento para provar que são fortes.

Setembro Amarelo não deveria nos ensinar apenas a perguntar “você está bem?”. Deveria nos ensinar a criar ambientes em que alguém possa responder honestamente quando a resposta for “não”.

E, principalmente, em que essa resposta seja recebida com humanidade, não com julgamento.